quarta-feira, 12 de julho de 2017

Death Valley - Capítulo 3 (Parte Final)



Houve um momento de silêncio geral. Cada lado avaliava suas próprias chances em uma briga. Se Jester tinha um canivete, Joshua, Derek e Sebástian eram muito mais fortes fisicamente e, claro, tinham a vantagem do treinamento militar. O taco de beisebol também ajudaria. Mas, Joshua tinha certeza que aquele, a gêmea abusada sabia usar bem. Jester e outros pareceram chegar a uma conclusão. Manny se afastando, ainda gritou.
- As putinhas vão pagar! Eu juro que vão. – Logo depois do aviso, ele se virou e saiu correndo. Jester fez um gesto com o canivete, simulando cortar o pescoço.
Kaleessa deu um sorriso de canto.
- Bem vindos a Death Valley. Vocês arrumaram uma baita confusão, hein?!
Joshua estranhou a calma das duas mulheres.
- Nós? Vocês xingaram a mulher deles. 
- Não falamos nenhuma mentira. – Kaleessa deu de ombros. Com a cabeça, indicou Sebástian. – Melhor esconder seu cordão. Se for de prata mesmo, vai ter gente querendo roubar para trocar por comida com os soldados.
Ele cerrou o cenho, olhando o cordão e escondendo ele.
 - Bom, acho então que devemos uma para vocês. O que querem? Dinheiro, comida, o que em troca? – Perguntou.
Kathariny riu, levantando o bastão e apontando para ele.
- Eu deveria lhe dar com isso na sua cara por essa ofensa, mas acredito que por ser novatos, não sabem diferenciar as pessoas. – Disse ela, se virando de costas. – Terão muito que aprender. – Ela olhou para o grandão. – São bem saudáveis e educados para estar aqui. Quem são vocês? 
Derek deu de ombros.
- Pessoas exiladas, que não se adaptaram as leis do governo, fomos presos e mandados para cá. Acredito que isso que aconteceu foi um belo jeito de dizer boas vindas ao inferno, não é?
Foi a vez de Kaleessa rir.
- Acho que sim, mas escutem... Jester e sua turma não estão brincando. Eles são perigosos. Precisam tomar cuidado.
Joshua assentiu, analisando bem o perfil das duas irmãs. Notava-se a semelhança, mas também as diferenças. O cabelo preto e a pele levemente bronzeada contrastavam com os lábios finos e olhos meio fechadinhos. Mas, a de taco de beisebol na mão era menor em estatura e com perfil mais punk. A outra, com uma mecha avermelhada no meio da cabeleira negra, tinha o nariz mais arrebitado e sua voz era pausada como a de uma professora.
- Vamos tomar cuidado. Obrigado. – Respondeu Joshua. Era a chance de se aproximarem dos seus alvos. – Tem mais alguma boa dica de como nos virarmos por aqui? Mount Lee é um saco, mas a comida vem em pratos. – Ele se arrependeu do disse no segundo seguinte. – Desculpe, não quis ofender.
Kathariny apenas respirou fundo.
- Eu sei muito bem como é seu jeito de comer lá, mas se querem comer aqui, vão ter que aprender a revirar o que os guardas trazem todos os dias. Aquilo é o que tem para comer, já em relação aos pratos, podem dar sorte de vir algum também. – Tocou no braço da irmã e se viraram para ir embora.
- Esperem! – Disse Sebástian, quando perceberam que elas iriam embora. Elas se viraram para ele. – Meu amigo não quis ofender, nos desculpem... Estamos nervosos pela nossa primeira noite no distrito. Nunca vivemos assim e é novo. Vamos precisar de ajuda. – Disse, tentando ser convincente.
Kaleessa cruzou os braços. No fundo, começou a se arrepender de ter interferido na briga deles com Jester. Deviam ser aqueles mimadinhos que agiam com cartazes contra o Governo de Rude. Não eram defensores da causa de verdade.
- Kathariny já disse tudo. Os caminhões chegam todos os dias com a comida que sobra de Mount Lee. Vez ou outra, vem alguns móveis, roupas bacanas. Tudo usado. Se você tiver sorte em conseguir, ele é todo seu. 
Joshua já tinha ouvido falar de como era a vida em Death Valley. Campanhas de ajuda para os renegados sempre começavam e acabavam como um piscar de olhos. Para os que viviam com todas as regalias, pensar nos exilados era um passatempo de gente que queria fingir ser benevolente. Dormiam melhor com suas consciências achando que fizeram o bem a alguém.
- Certo. Comida e roupas vêm dos caminhões. E a casa? Podemos pegar qualquer uma?
Kathariny suspirou.
- Achem uma desocupada, se tiverem sorte. – Ela apontou o bastão para Joshua. – Seu povo foi quem construiu tudo isso aqui então, esteja preparado para qualquer coisa. Existem muitos prédios,  casas e praças abandonada. – Ela se afastou. – Boa sorte na nova vida de vocês.  – Disse, preparada para ir embora.
Kaleessa deu uma última olhada para os três homens. Sentia-se arrepiada pela maneira que o de olhos azuis a encarava. Suspirou e massageou a nuca. Teve que dar uma corridinha para alcançar a irmã gêmea.
- Não entendo esses caras. Nascem em berço de ouro, comendo caviar e bebendo champanhe. Com toda a sorte do mundo e fazem merda para acabar nesse lugar. – Ela fez um muxoxo com a boca. – Viu o que o loirinho disse? Eles eram contra o governo. O que eles eram contra? A não lavarem suas bundas todos os dias?! Essa gente de Mount Lee é muito engraçada.
Kathariny apenas suspirou.
- O melhor é ficarmos mesmo longe deles. Já chegaram trazendo problemas, sinal que não são boa gente. – Elas caminharam por um bom tempo, mas o tempo todo, Kathariny olhava para trás. Até que parou e olhou para a irmã. – Está sentindo isso?
Kaleessa assentiu.
- Os idiotas estão nos seguindo. Um deles tropeçou naquela roda de ônibus que fica na rua 4. – Ela estava se segurando para não rir. – O que quer fazer?
Kathariny não disse nada, apenas acenou. 
Não demorou muito e o trio apareceu, olhando de um lado para o outro. Um suspiro veio de Sebástian.
- Jurei que elas tinham vindo por aqui. – Disse ele, meio perdido. – E agora?
- E agora que vocês irão nos explicar o que realmente estão querendo. – Falou Kathariny, aparecendo, com os braços cruzados e olhando os três. Kaleessa segurava o bastão. 
Os três se viraram, assustados. Um olhou para o outro. Sorte que não falaram nada sobre a missão.
- Só queremos um lugar para ficar até acharmos algo aqui. Uma pequena ajuda de como viver aqui. Só isso.
Joshua sentiu-se no dever de tomar conta da situação. Ele ergueu as mãos, como se pedisse trégua.
- Olha, tem todo o direito de ficarem bravas. Começamos mal de manhã e também não fomos legais agora a pouco. É que... Ahn, estamos confusos. Lá em Mount Lee, a gente tentou fazer uma revolução contra o governo. Juro! Somos contra o Rude. Tem famílias lá que estão sendo escravizadas para que seus "defeitos" – Ele fez um sinal de aspas com as mãos. – Não sejam revelados e eles jogados aqui em Death Valley. 
- Desde que eu era pequena, chega gente como vocês aqui. No fim, acabam sendo babacas e morrem porque se metem com valentões como Jester. – Kaleessa falou.
- Não queremos morrer. Vamos aprender a viver aqui. – Joshua olhou Kathariny. – Só precisamos de ajuda. Por favor.
As duas irmãs olharam os homens. Eles pareciam mesmo perdidos e não querendo tirar vantagens. Um suspiro e Kathariny deu o decreto.
- Amanhã, bem cedo, espero vocês no centro. Os caminhões chegarão nesse horário. - Elas passam pelos três. – Se atrasarem, esqueçam qualquer coisa vindo da nossa parte. – Antes de ir, ela ainda disse. – Continuem caminhando por ali, do lado direito da rua há uma antiga Igreja e podem dormir por lá. Falem com Nemeth, ele mora na sacristia e digam que fomos nós quem os mandamos para lá.
Os três ficaram em silencio olhando o caminho que as gêmeas tomaram para ir embora. Certos de que foram embora, Sebástian soltou.

- São elas que estão tramando uma guerra com Mount Lee?

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Death Valley - Capítulo 3 (Primeira Parte)


CAPÍTULO 3

A cor do céu ao anoitecer em Death Valley era como um borrão de tristeza em uma tela de um quadro. Meio cinza, meio laranja, com tons em vermelhos e quase, quase sendo dragados pela escuridão da noite. A lua não tinha dado o ar de sua presença, camuflada em alguma nuvem.
Joshua não conseguia ficar dentro do apartamento de Marek. Aquele acúmulo de móveis mal acabados e madeira sendo reciclada, o lembrava mais o cafofo de um rato. Acostumado a Mount Lee, bagunça e desordem não fazia parte de si.
Derek e Sebástian o seguiram até a rua. Alguns postes de iluminação não estavam acessos e se não fosse pelas janelas dos prédios, a maioria a base de luz de velas, tudo estaria um breu. Joshua percebeu também que era frio. Sua regata preta deixava boa parte de seus músculos a mostra.
- Preciso arrumar um casaco. – Ele comentou, meio entretido com a fachada de um prédio mais a frente. – E um jeito de arrumar comida. Marek só tem ovo e leite na geladeira. Meu estômago revira só de pensar em comer isso de novo.
Aquele lugar era sinistro à noite, além de ser muito escuro. Eles não sabiam se iriam sobreviver tanto tempo naquele lugar, mas se era para conquistarem seus objetivos, fazer o que?! Derek também esfregava os braços.
- Acho que se pedirmos um pouco de comida ao tal do Velho, talvez, possam nos ajudar. Acredito que seria uma boa jogada para uma aproximação. – Disse ele, olhando para trás toda hora. 
Sebástian pensava, sua barriga roncava de fome.
- O problema não é o Velho nos dar comida. Vocês viram. Todo o lixo de Mount Lee vem para cá. Vamos ter que acostumar a procurar comida como o pessoal daqui. – Ele respirou fundo. – Se estão mesmo tramando algo, é de se explicar. Eu não aguentaria ficar aqui muito tempo.
Joshua deu uma olhada para Sebástian e suspirou. O amigo tinha razão quanto ao fato de eles terem que se acostumar com as regras de Death Valley. Precisavam disso e precisavam da cabeça das gêmeas Martínez entregues em uma bandeja de prata ao governador Rude.
- Se aquelas garotas estão armando um motim, não vai ser tão difícil assim descobrir. Tudo o que temos que fazer é...
- HEI! HEI VOCÊS FILHOS DE UMA PUTA! – Uma voz interrompeu a fala de Joshua com os amigos. – O que estão fazendo na nossa rua?
Joshua precisou estreitar os olhos para ver melhor o grupinho que se aproximava em meio à noite. O que vinha a frente, nem era muito alto. De calças largas, botas e casaco que cobria boa parte do corpo, ele poderia ser um habitante de Mount Lee não fosse o linguajar. Do lado esquerdo, vinha um negro, com barba grande, meio suja. O cabelo era do tipo "power", coisa mais antiga que os anos 80. Do lado direito, outro possível habitante de Mount Lee, com riscos nas laterais da cabeça e cabelo amarrado em um coque bem no alto.
- Acho que vocês estão falando com as pessoas erradas. – Disse Joshua, tentando não entrar em briga.
- Ih os novatinhos são bebês! – Riu o que parecia ser o líder do trio. – Vão chorar pros soldados amanhã que querem voltar pra casinha que chutou vocês, vão?!
Sebástian olhou de um para outro.
- Escutem, não queremos problemas aqui. Queremos paz e nada mais que isso. – Disse, tentando manter a calma. 
O de cabelo em coque riu.
- Entenda garoto,  aqui o que você não terá é paz. Aqui só os mais fortes conseguem sobreviver e quem segue aquele Velho filho da mãe, acaba ainda mais na sarjeta.
Derek estreitou os olhos.
- O que tem a ver aquele Velho?
Um com o cabelo mais certinho apareceu. Andou devagar e analisou os três homens.
- Aqui temos regras. Ou segue nosso lado ou segue o do Velho. Queremos algo melhor para o nosso povo, já que somos renegados pela sociedade gloriosa de Mount Lee, então aconselho vocês a escolher um lado. Prevalece quem é mais esperto. – Ele estendeu a mão para Joshua. – Meu nome é Jester, esses são Manny e Ronnie.
Ah! Que beleza... Mais escolhas de lados. Joshua quase riu com aquilo. Bando de idiotas! Se soubessem quem eles eram jamais estariam falando assim. Criar amizades era algo que só os atrasaria.
- Eu sou o Joshua, estes são Derek e Sebástian. – Ele apontou os dois amigos, mas não cumprimentou Jester. – Eu agradeço as dicas, mas nos viramos sozinhos. 
Jester ergueu a sobrancelha bem desenhada, mas foi Manny quem deu alguns passos à frente, ficando cara a cara com Joshua. Se fosse um cachorro teria mijado bem ali demarcando o território.
- Se não querem nossa ajuda, também não podem ficar aqui sem pagar por isso. – O cara tinha uma malícia na fala que era irritante. Ele foi caminhando para o lado, passando a língua nos lábios olhando Sebástian de cima a baixo. – O que trouxeram de Mount Lee? Tem algum ouro ai? Esse cordão vale grana? – Manny tentou pegar o cordão de prata que pendia do pescoço de Sebástian.
Ele afastou a mão de Manny, acabando em uma chave de braço nele. O cara gritou.
- Acho melhor não se meter conosco. Não temos nada que sejam do interesse de vocês e se não querem problemas, acho melhor ficar longe. – Disse, em tom de ameaça. 
Jester foi pra cima dele, mas Joshua entrou na sua frente.

- Vocês não entendem com quem estão mexendo. Não temos medo e se for preciso... – Ele e Ronnie tiram dos bolsos um canivete cada um. – Vamos lutar. 
- Não. – Disse uma voz, chamando a atenção de todos. – Ninguém aqui vai fazer nada ou teremos que agir da nossa forma, ouviu Jester? – Era Kathariny, com as mãos na cintura. Ao seu lado, Kaleessa só olhava para a confusão.
Joshua fitou por uns segundos as duas garotas. Em meio à parca luminosidade, elas conseguiam destaque. Um detalhe chamou a atenção dele: Uma delas tinha um taco de beisebol apoiado contra o chão. A outra, mais observadora, pareceu procurar por mais gente.
- O Velho está há muito tempo querendo dar uma lição em vocês e sua putinha, Ragdoll, cansou nossa paciência hoje. Se não querem se ver com Hook, Wolf e o Velho, sugiro que caiam fora. 
Manny inflou ar nos pulmões, depois de ter sido solto por Sebástian.
- As únicas putinhas aqui são vocês, Martínez! 
Joshua não gostou daquilo.
- Vão embora cara. Deixem a gente e elas em paz.
Jester foi se aproximando das duas, parando pouco longe delas.
- Acredito que não queiram sujar as mãos como o paizinho de vocês fez. - Disse ele, começando a apontar o canivete para elas. – Soubemos o que fizeram a Ragdoll mais cedo e é inaceitável. Acho que seria legal mostrar o que acontece quando mexem conosco. 
Kathariny riu.
- Vocês e o mesmo blá-blá-blá de sempre. Não somos nós que temos sangue ruim, são vocês que acham mandar em alguma. A vergonha alheia de Death Valley... Os caras que dividem uma mesma mulher e usam ela para ganhar coisas dos soldados. – Kathariny procurou por alguém.  – Cadê Ragdoll? Transou com quantos hoje?
Jester e os outros dois arregalaram os olhos e Ronnie andou na direção das duas, mas foi Derek quem entrou na frente.
- Você e esse projeto de canivete não terão vantagens sobre nós. Acho melhor irem embora e deixar a todos nós em paz. É uma boa opção.