quarta-feira, 12 de julho de 2017

Death Valley - Capítulo 3 (Parte Final)



Houve um momento de silêncio geral. Cada lado avaliava suas próprias chances em uma briga. Se Jester tinha um canivete, Joshua, Derek e Sebástian eram muito mais fortes fisicamente e, claro, tinham a vantagem do treinamento militar. O taco de beisebol também ajudaria. Mas, Joshua tinha certeza que aquele, a gêmea abusada sabia usar bem. Jester e outros pareceram chegar a uma conclusão. Manny se afastando, ainda gritou.
- As putinhas vão pagar! Eu juro que vão. – Logo depois do aviso, ele se virou e saiu correndo. Jester fez um gesto com o canivete, simulando cortar o pescoço.
Kaleessa deu um sorriso de canto.
- Bem vindos a Death Valley. Vocês arrumaram uma baita confusão, hein?!
Joshua estranhou a calma das duas mulheres.
- Nós? Vocês xingaram a mulher deles. 
- Não falamos nenhuma mentira. – Kaleessa deu de ombros. Com a cabeça, indicou Sebástian. – Melhor esconder seu cordão. Se for de prata mesmo, vai ter gente querendo roubar para trocar por comida com os soldados.
Ele cerrou o cenho, olhando o cordão e escondendo ele.
 - Bom, acho então que devemos uma para vocês. O que querem? Dinheiro, comida, o que em troca? – Perguntou.
Kathariny riu, levantando o bastão e apontando para ele.
- Eu deveria lhe dar com isso na sua cara por essa ofensa, mas acredito que por ser novatos, não sabem diferenciar as pessoas. – Disse ela, se virando de costas. – Terão muito que aprender. – Ela olhou para o grandão. – São bem saudáveis e educados para estar aqui. Quem são vocês? 
Derek deu de ombros.
- Pessoas exiladas, que não se adaptaram as leis do governo, fomos presos e mandados para cá. Acredito que isso que aconteceu foi um belo jeito de dizer boas vindas ao inferno, não é?
Foi a vez de Kaleessa rir.
- Acho que sim, mas escutem... Jester e sua turma não estão brincando. Eles são perigosos. Precisam tomar cuidado.
Joshua assentiu, analisando bem o perfil das duas irmãs. Notava-se a semelhança, mas também as diferenças. O cabelo preto e a pele levemente bronzeada contrastavam com os lábios finos e olhos meio fechadinhos. Mas, a de taco de beisebol na mão era menor em estatura e com perfil mais punk. A outra, com uma mecha avermelhada no meio da cabeleira negra, tinha o nariz mais arrebitado e sua voz era pausada como a de uma professora.
- Vamos tomar cuidado. Obrigado. – Respondeu Joshua. Era a chance de se aproximarem dos seus alvos. – Tem mais alguma boa dica de como nos virarmos por aqui? Mount Lee é um saco, mas a comida vem em pratos. – Ele se arrependeu do disse no segundo seguinte. – Desculpe, não quis ofender.
Kathariny apenas respirou fundo.
- Eu sei muito bem como é seu jeito de comer lá, mas se querem comer aqui, vão ter que aprender a revirar o que os guardas trazem todos os dias. Aquilo é o que tem para comer, já em relação aos pratos, podem dar sorte de vir algum também. – Tocou no braço da irmã e se viraram para ir embora.
- Esperem! – Disse Sebástian, quando perceberam que elas iriam embora. Elas se viraram para ele. – Meu amigo não quis ofender, nos desculpem... Estamos nervosos pela nossa primeira noite no distrito. Nunca vivemos assim e é novo. Vamos precisar de ajuda. – Disse, tentando ser convincente.
Kaleessa cruzou os braços. No fundo, começou a se arrepender de ter interferido na briga deles com Jester. Deviam ser aqueles mimadinhos que agiam com cartazes contra o Governo de Rude. Não eram defensores da causa de verdade.
- Kathariny já disse tudo. Os caminhões chegam todos os dias com a comida que sobra de Mount Lee. Vez ou outra, vem alguns móveis, roupas bacanas. Tudo usado. Se você tiver sorte em conseguir, ele é todo seu. 
Joshua já tinha ouvido falar de como era a vida em Death Valley. Campanhas de ajuda para os renegados sempre começavam e acabavam como um piscar de olhos. Para os que viviam com todas as regalias, pensar nos exilados era um passatempo de gente que queria fingir ser benevolente. Dormiam melhor com suas consciências achando que fizeram o bem a alguém.
- Certo. Comida e roupas vêm dos caminhões. E a casa? Podemos pegar qualquer uma?
Kathariny suspirou.
- Achem uma desocupada, se tiverem sorte. – Ela apontou o bastão para Joshua. – Seu povo foi quem construiu tudo isso aqui então, esteja preparado para qualquer coisa. Existem muitos prédios,  casas e praças abandonada. – Ela se afastou. – Boa sorte na nova vida de vocês.  – Disse, preparada para ir embora.
Kaleessa deu uma última olhada para os três homens. Sentia-se arrepiada pela maneira que o de olhos azuis a encarava. Suspirou e massageou a nuca. Teve que dar uma corridinha para alcançar a irmã gêmea.
- Não entendo esses caras. Nascem em berço de ouro, comendo caviar e bebendo champanhe. Com toda a sorte do mundo e fazem merda para acabar nesse lugar. – Ela fez um muxoxo com a boca. – Viu o que o loirinho disse? Eles eram contra o governo. O que eles eram contra? A não lavarem suas bundas todos os dias?! Essa gente de Mount Lee é muito engraçada.
Kathariny apenas suspirou.
- O melhor é ficarmos mesmo longe deles. Já chegaram trazendo problemas, sinal que não são boa gente. – Elas caminharam por um bom tempo, mas o tempo todo, Kathariny olhava para trás. Até que parou e olhou para a irmã. – Está sentindo isso?
Kaleessa assentiu.
- Os idiotas estão nos seguindo. Um deles tropeçou naquela roda de ônibus que fica na rua 4. – Ela estava se segurando para não rir. – O que quer fazer?
Kathariny não disse nada, apenas acenou. 
Não demorou muito e o trio apareceu, olhando de um lado para o outro. Um suspiro veio de Sebástian.
- Jurei que elas tinham vindo por aqui. – Disse ele, meio perdido. – E agora?
- E agora que vocês irão nos explicar o que realmente estão querendo. – Falou Kathariny, aparecendo, com os braços cruzados e olhando os três. Kaleessa segurava o bastão. 
Os três se viraram, assustados. Um olhou para o outro. Sorte que não falaram nada sobre a missão.
- Só queremos um lugar para ficar até acharmos algo aqui. Uma pequena ajuda de como viver aqui. Só isso.
Joshua sentiu-se no dever de tomar conta da situação. Ele ergueu as mãos, como se pedisse trégua.
- Olha, tem todo o direito de ficarem bravas. Começamos mal de manhã e também não fomos legais agora a pouco. É que... Ahn, estamos confusos. Lá em Mount Lee, a gente tentou fazer uma revolução contra o governo. Juro! Somos contra o Rude. Tem famílias lá que estão sendo escravizadas para que seus "defeitos" – Ele fez um sinal de aspas com as mãos. – Não sejam revelados e eles jogados aqui em Death Valley. 
- Desde que eu era pequena, chega gente como vocês aqui. No fim, acabam sendo babacas e morrem porque se metem com valentões como Jester. – Kaleessa falou.
- Não queremos morrer. Vamos aprender a viver aqui. – Joshua olhou Kathariny. – Só precisamos de ajuda. Por favor.
As duas irmãs olharam os homens. Eles pareciam mesmo perdidos e não querendo tirar vantagens. Um suspiro e Kathariny deu o decreto.
- Amanhã, bem cedo, espero vocês no centro. Os caminhões chegarão nesse horário. - Elas passam pelos três. – Se atrasarem, esqueçam qualquer coisa vindo da nossa parte. – Antes de ir, ela ainda disse. – Continuem caminhando por ali, do lado direito da rua há uma antiga Igreja e podem dormir por lá. Falem com Nemeth, ele mora na sacristia e digam que fomos nós quem os mandamos para lá.
Os três ficaram em silencio olhando o caminho que as gêmeas tomaram para ir embora. Certos de que foram embora, Sebástian soltou.

- São elas que estão tramando uma guerra com Mount Lee?

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Death Valley - Capítulo 3 (Primeira Parte)


CAPÍTULO 3

A cor do céu ao anoitecer em Death Valley era como um borrão de tristeza em uma tela de um quadro. Meio cinza, meio laranja, com tons em vermelhos e quase, quase sendo dragados pela escuridão da noite. A lua não tinha dado o ar de sua presença, camuflada em alguma nuvem.
Joshua não conseguia ficar dentro do apartamento de Marek. Aquele acúmulo de móveis mal acabados e madeira sendo reciclada, o lembrava mais o cafofo de um rato. Acostumado a Mount Lee, bagunça e desordem não fazia parte de si.
Derek e Sebástian o seguiram até a rua. Alguns postes de iluminação não estavam acessos e se não fosse pelas janelas dos prédios, a maioria a base de luz de velas, tudo estaria um breu. Joshua percebeu também que era frio. Sua regata preta deixava boa parte de seus músculos a mostra.
- Preciso arrumar um casaco. – Ele comentou, meio entretido com a fachada de um prédio mais a frente. – E um jeito de arrumar comida. Marek só tem ovo e leite na geladeira. Meu estômago revira só de pensar em comer isso de novo.
Aquele lugar era sinistro à noite, além de ser muito escuro. Eles não sabiam se iriam sobreviver tanto tempo naquele lugar, mas se era para conquistarem seus objetivos, fazer o que?! Derek também esfregava os braços.
- Acho que se pedirmos um pouco de comida ao tal do Velho, talvez, possam nos ajudar. Acredito que seria uma boa jogada para uma aproximação. – Disse ele, olhando para trás toda hora. 
Sebástian pensava, sua barriga roncava de fome.
- O problema não é o Velho nos dar comida. Vocês viram. Todo o lixo de Mount Lee vem para cá. Vamos ter que acostumar a procurar comida como o pessoal daqui. – Ele respirou fundo. – Se estão mesmo tramando algo, é de se explicar. Eu não aguentaria ficar aqui muito tempo.
Joshua deu uma olhada para Sebástian e suspirou. O amigo tinha razão quanto ao fato de eles terem que se acostumar com as regras de Death Valley. Precisavam disso e precisavam da cabeça das gêmeas Martínez entregues em uma bandeja de prata ao governador Rude.
- Se aquelas garotas estão armando um motim, não vai ser tão difícil assim descobrir. Tudo o que temos que fazer é...
- HEI! HEI VOCÊS FILHOS DE UMA PUTA! – Uma voz interrompeu a fala de Joshua com os amigos. – O que estão fazendo na nossa rua?
Joshua precisou estreitar os olhos para ver melhor o grupinho que se aproximava em meio à noite. O que vinha a frente, nem era muito alto. De calças largas, botas e casaco que cobria boa parte do corpo, ele poderia ser um habitante de Mount Lee não fosse o linguajar. Do lado esquerdo, vinha um negro, com barba grande, meio suja. O cabelo era do tipo "power", coisa mais antiga que os anos 80. Do lado direito, outro possível habitante de Mount Lee, com riscos nas laterais da cabeça e cabelo amarrado em um coque bem no alto.
- Acho que vocês estão falando com as pessoas erradas. – Disse Joshua, tentando não entrar em briga.
- Ih os novatinhos são bebês! – Riu o que parecia ser o líder do trio. – Vão chorar pros soldados amanhã que querem voltar pra casinha que chutou vocês, vão?!
Sebástian olhou de um para outro.
- Escutem, não queremos problemas aqui. Queremos paz e nada mais que isso. – Disse, tentando manter a calma. 
O de cabelo em coque riu.
- Entenda garoto,  aqui o que você não terá é paz. Aqui só os mais fortes conseguem sobreviver e quem segue aquele Velho filho da mãe, acaba ainda mais na sarjeta.
Derek estreitou os olhos.
- O que tem a ver aquele Velho?
Um com o cabelo mais certinho apareceu. Andou devagar e analisou os três homens.
- Aqui temos regras. Ou segue nosso lado ou segue o do Velho. Queremos algo melhor para o nosso povo, já que somos renegados pela sociedade gloriosa de Mount Lee, então aconselho vocês a escolher um lado. Prevalece quem é mais esperto. – Ele estendeu a mão para Joshua. – Meu nome é Jester, esses são Manny e Ronnie.
Ah! Que beleza... Mais escolhas de lados. Joshua quase riu com aquilo. Bando de idiotas! Se soubessem quem eles eram jamais estariam falando assim. Criar amizades era algo que só os atrasaria.
- Eu sou o Joshua, estes são Derek e Sebástian. – Ele apontou os dois amigos, mas não cumprimentou Jester. – Eu agradeço as dicas, mas nos viramos sozinhos. 
Jester ergueu a sobrancelha bem desenhada, mas foi Manny quem deu alguns passos à frente, ficando cara a cara com Joshua. Se fosse um cachorro teria mijado bem ali demarcando o território.
- Se não querem nossa ajuda, também não podem ficar aqui sem pagar por isso. – O cara tinha uma malícia na fala que era irritante. Ele foi caminhando para o lado, passando a língua nos lábios olhando Sebástian de cima a baixo. – O que trouxeram de Mount Lee? Tem algum ouro ai? Esse cordão vale grana? – Manny tentou pegar o cordão de prata que pendia do pescoço de Sebástian.
Ele afastou a mão de Manny, acabando em uma chave de braço nele. O cara gritou.
- Acho melhor não se meter conosco. Não temos nada que sejam do interesse de vocês e se não querem problemas, acho melhor ficar longe. – Disse, em tom de ameaça. 
Jester foi pra cima dele, mas Joshua entrou na sua frente.

- Vocês não entendem com quem estão mexendo. Não temos medo e se for preciso... – Ele e Ronnie tiram dos bolsos um canivete cada um. – Vamos lutar. 
- Não. – Disse uma voz, chamando a atenção de todos. – Ninguém aqui vai fazer nada ou teremos que agir da nossa forma, ouviu Jester? – Era Kathariny, com as mãos na cintura. Ao seu lado, Kaleessa só olhava para a confusão.
Joshua fitou por uns segundos as duas garotas. Em meio à parca luminosidade, elas conseguiam destaque. Um detalhe chamou a atenção dele: Uma delas tinha um taco de beisebol apoiado contra o chão. A outra, mais observadora, pareceu procurar por mais gente.
- O Velho está há muito tempo querendo dar uma lição em vocês e sua putinha, Ragdoll, cansou nossa paciência hoje. Se não querem se ver com Hook, Wolf e o Velho, sugiro que caiam fora. 
Manny inflou ar nos pulmões, depois de ter sido solto por Sebástian.
- As únicas putinhas aqui são vocês, Martínez! 
Joshua não gostou daquilo.
- Vão embora cara. Deixem a gente e elas em paz.
Jester foi se aproximando das duas, parando pouco longe delas.
- Acredito que não queiram sujar as mãos como o paizinho de vocês fez. - Disse ele, começando a apontar o canivete para elas. – Soubemos o que fizeram a Ragdoll mais cedo e é inaceitável. Acho que seria legal mostrar o que acontece quando mexem conosco. 
Kathariny riu.
- Vocês e o mesmo blá-blá-blá de sempre. Não somos nós que temos sangue ruim, são vocês que acham mandar em alguma. A vergonha alheia de Death Valley... Os caras que dividem uma mesma mulher e usam ela para ganhar coisas dos soldados. – Kathariny procurou por alguém.  – Cadê Ragdoll? Transou com quantos hoje?
Jester e os outros dois arregalaram os olhos e Ronnie andou na direção das duas, mas foi Derek quem entrou na frente.
- Você e esse projeto de canivete não terão vantagens sobre nós. Acho melhor irem embora e deixar a todos nós em paz. É uma boa opção.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Death Valley - Capítulo 2 (Parte Final)


O dia custou a passar. As gêmeas Martínez seguiram sua rotina ajudando aqueles que precisavam. No final da tarde, o momento de voltar para casa chegou. A caminhada pareceu longa e os pensamentos nas palavras de Ragdoll deixou as irmãs muito caladas. O Velho odiava ver as meninas assim. Até Nikki tentou, mas elas não se animaram. Wolfe havia achado algumas coisas e preparado uma boa sopa que quase ninguém comeu.
Kaleessa foi para o quarto, enquanto Kathariny se enfiou em um livro sobre carros, achado por Hook alguns dias atrás, mas aquilo a deixou inquieta. Deixou o livro de lado e foi atrás da irmã.  O quarto delas era dividido por um lençol esticado apenas para que cada uma tivesse sua privacidade respeitada. Quando Kathariny puxou o pano, percebeu o que a irmã estava fazendo. Kaleessa tinha um livro nas mãos.  Não um livro qualquer, mas sim um dos diários de seu pai. Ela encostou-se à porta e cruzou os braços.  
- Se tivesse dez anos, o Velho te deixaria de castigo por isso. – Falou,  assustando a irmã.
Ela até tentou escondeu o diário, mas não dava mais tempo. Encolheu-se na cama de colchão duro.
- Vai me dedurar? Eu não tenho mais dez anos e não tem muito coisa para ele me tirar além dos diários e as fotos que sobraram do nosso pai. – Kaleesa comentou, ainda muito triste. Suspirou tão fundo, que parecia carregar o peso de toda acusação sobre a memória do pai nos ombros. – Eu leio isso aqui desde criança, Kat. Papai nunca falou em matar ninguém. Ele só queria trazer a união de todas as pessoas, fazer o governo aceitar a oposição pacificamente. Eu... Eu não entendo como... Como ele pode ter matado o governador.
Kathariny suspirou e se aproximou da irmã, sentando-se ao lado dela no colchão.
- Eu também leio isso desde criança. Entendo suas dúvidas. É difícil saber qual foi o momento que papai mudou de lado. Ele era um homem tão dedicado às causas sociais, a luta pela igualdade. – Ela sorriu. – Viu que nesse diário  ele fala de nós?
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Kaleessa.
- Aham, eu vi... Disse que éramos como sol e a lua. Porque quando uma chorava, a outra dormia e vice-versa. – As duas irmãs riram e Kaleessa acariciou a capa do diário. – Eu queria tanto ter crescido com ele e com a mamãe. Tanto!
- Eu também. – Falou Kathariny, triste. Ela olhou e pegou o diário, procurando uma página. – Não sou detetive, mas eu tenho uma teoria. Podem ter armado para ele. Quando eu li pela primeira vez, eu fiquei me perguntando quem era esse homem. – Ela mostrou a página para a irmã.
Kaleessa já havia visto uma foto daquele cara, mas entre tantas lembranças do pai e da mãe, ela nunca se importou muito. O homem na foto estava sorrindo, bem ao lado de Martínez. Candice, a mãe das gêmeas, estava com um barrigão e também sorria. Pareciam estar felizes.
- Já tentou perguntou ao Velho? - Kathariny revirou os olhos e Kaleessa riu. - É, péssima ideia, esqueça. – Ela apontou uma linha escrita. – Aqui, papai o chama de "brow". Deviam ser amigos. Muito amigos.

- Sim, mas eu tenho as minhas desconfianças.  – Com um suspiro, Kathariny jogou o diário de lado e voltou a olhar a irmã. – Lembre-se sempre que devemos acreditar em tudo que papai nos deixou. Ele foi um herói. O que importa,  é o que pensamos sobre ele. – E deu um abraço na irmã.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Death Valley - Capítulo 2 (Segunda Parte)


Os prédios em Death Valley não eram muito diferentes uns dos outros. Aqueles que não haviam sido destruídos com a guerra foram aproveitados pelas pessoas que lá viviam.
Melhorias? Isso não dava para dizer ao certo. Os exilados viravam-se como podiam. Com os restos e "doações" vindos de Mount Lee, aqueles que conseguiam boas coisas, viviam tentando conforto para suas habitações.
Na rua do grande carrossel, um trio de homens andava preocupados se haviam sidos seguidos. Não queriam chamar atenção. Deveriam se misturar com os outros exilados. Até porque, era isso o que os três eram: exilados. O mais alto e cabeludo, se chamava Joshua. Foi ele quem apontou o prédio de pintura rosa descascado.
Vinte anos antes e ele serviu de prefeitura. A guerra quase o destruiu. O que havia ficado de pé, parecia... Acolhedor. Isso, se pelos corredores o cheiro de urina e fezes não fosse sentido. O esgoto estava danificado, isso era óbvio.
No quarto andar, uma porta em especial. A caveira de um leão desenhada nela era a indicação que Joshua procurava. Ele bateu na porta e um homem com barba rala, óculos de armação fina e cara de quem não devia ser um exilado os atendeu, assustado.
- Entrem, entrem. – O apartamento pequeno era um caos. Muitos móveis e pouco espaço. – Er... Tem uma cadeira ali. Outra ali. E acho que tem uma... – Ele falava agitado, mexendo os braços. – Ai, droga. Eu devia ter arrumado isso.
Joshua olhou de um lado para o outro. Pode ver um serrote e uma lixa de madeira.
- Hei, Marek. – Joshua chamou a atenção do homem atolado. – Está tudo bem, cara. Não precisamos de cadeiras. Precisamos de um lugar para ficar.
- Lugar para ficar? – Marek repetiu, confuso. – Claro! Vocês podem ficar aqui. – Ele estendeu os braços, mostrando seu bagunçado espaço.
Aquilo era estranho para os três. Eles olhavam de um lado para o outro e não sabiam aonde se enfiar. O moreno e de cabelo até os ombros se chamava Sebástian, o loiro de olhos azuis bem claros era Derek.  Ele quem torceu o nariz ao olhar o lugar e se sentou em uma cadeira que Marek apontou.
- Ahn... Cara, já pensou em arrumar tudo isso aqui? – Ele pegou uma meia, que fedia e jogou para o lado.
Sebástian balançou a cabeça.
- Marek, nos coloque a par de tudo, por favor. – Disse, mais sério.
- Arrumar isso. – Marek catou a meia e tentou escondê-la, repetindo o que os outros homens falavam. – Contar tudo.... Ah não, não! Eu não sei onde guardei minhas instruções.
Joshua viu sua paciência acabar. Ele não queria ser severo com Marek, mas não dava para ser o bonzinho do lugar. Ele colocou as mãos sobre os ombros do anfitrião e o jogou contra a parede. Tentou sorrir, apesar da agressão.
- Quer voltar a Mount Lee, não quer? Dar orgulho ao seu tio. Foi ele quem nos mandou aqui.
Marek assentiu com a cabeça.
- Titio... Meu tio... – O homem bateu na própria cabeça. – Tem o Velho que todo mundo acha que é o líder, mas ele não é. Ou é. É sim. Eu gosto dele. – Ele falava um pouco confuso. – Tem a D.D que é uma velhota que me dá medo. A Ragdoll e todo mundo que anda com ela. Não gostam do Velho. As luzes são apagadas às dez da noite e tem água encanada, mas não podem gastar muito. O Velho fecha a válvula principal quando não chove e, por isso temos que poupar a água e...
- Não queremos saber o que temos de poupar ou não, para nós não vai ser problema algum. – Falou Sebástian, um tanto bravo. Ele respirou fundo e voltou a falar mais baixo. – Queremos saber do Velho e das pessoas desse lugar. Aquelas envolvidas na confusão mais cedo. Vimos você lá.  Precisamos saber de coisas mais importantes.
Marek não respondeu e Joshua bufou.
Pelo visto, nada seria fácil naquela droga de lugar.
- Quanto mais coisas nos contar, mais rápido vamos descobrir o que precisamos e mais rápido vamos embora daqui. – Joshua ajeitou a camisa de Marek e falou baixo. – Você vai junto, esse é o trato, lembra? Mount Lee e seu tio te esperam. Ele vai colocar você do lado dele no governo de novo.
Mount Lee... O desejo de qualquer um exilado. Um sonho inatingível que Marek tinha tudo para conseguir. Ele ajeitou os óculos.
- O Velho é o líder. – Repetiu Marek, mais concentrado agora. – O cara de barba grisalha cercado pelos dois grandões e as garotas. Ele é o manda-chuvas por aqui. Todo mundo escuta ele. 
- E as garotas? – Perguntou Joshua, interessado. - São mesmo as filhas de Martínez?
- Sim, sim! – Marek confirmou, sacudindo a cabeça algumas vezes de modo afirmativo. – As gêmeas Kaleessa e Kathariny. As crianças adoram elas, por causa dos livros e dos brinquedos que elas inventam ou consertam. Eu também conserto coisas, mas não sou tão bom quanto a Kathariny. Ela é melhor com as máquinas, entende como elas funcionam.
Surgiu o interesse por parte deles sobre as gêmeas. Eles ouviram falar muito de sua criação e de sua inteligência e era por aquilo mesmo que estavam lá. O interesse do governo de Mount Lee nas duas meninas era grande e eles começavam a entender o por que.  
- E a outra menina? Ahn..  Kaloo, Kal....
- Kaleessa. – Marek completou o nome da gêmea. – Ela acha que pode educar as crianças. Ensina elas a ler e escrever. 
Derek achou aquilo ridículo.
- Para que?! Eles precisam de comida, não de literatura.
Marek concordou, cruzando os braços e os óculos balançando sobre o nariz.
- Mas, as Martínezs são assim. Como o pai era. Querem a salvação.
Joshua trocou olhares com Sebástian e Derek. Aquilo explicava um pouco da missão deles, mas não tudo. Eles não estavam ali para conter uma mínima ameaça ao governo de excelência do governador Rude. Não tinham sido jogados na merda por tão pouco. Ou tinham? Será que as gêmeas eram de alguma valia?
- Tem alguma coisa para comer aí? - Ele perguntou querendo se livrar de Marek. O anfitrião se embolou com as palavras e sumiu por uma porta. Isso deu tempo a Joshua. - Derek, Sebástian... Isso não faz o menor sentido. O governador Rude disse que essas garotas estavam armando uma nova revolta.
Sebástian passou a mão na nuca e respirou fundo.
- Achei que iam atacar os soldados, fazer algum alvoroço e a única coisa que vi foi aquela cheia de tatuagens bater em uma senhora e tentar roubar comida dela. Fora que parecem jovens demais para organizarem uma revolta.
Derek sorriu.
- Bem, o nome Martínez não é algo que cheire bem. Lembrem-se da história do pai delas. Confiaram tanto nele que quando teve a oportunidade, matou o antigo governador e todo esse caos começou. Então amigos, não se enganem com duas carinhas bonitas. – Concluiu ele.
Um pouco contra a vontade, Joshua concordou. A história dele, de Derek e Sebástian se assimilaram naquela missão. Amigos nos anos que serviram ao exército de Mount Lee, agora era os escolhidos para acabar com a tal revolta que estava sendo articulada por baixos dos panos. Era isso, ou então, viver em Death Valley não seria só uma missão. Seria para sempre. Joshua ouviu alguns barulhos e deduziu que Marek estava enrolado com as panelas.
- Vamos comer alguma coisa e dar uma volta por aí. – Decretou.

Se as filhas de Martínez eram seu objetivo, nada o podia parar.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Death Valley - Capítulo 2 (Primeira Parte)



CAPÍTULO 2

Ah! Como o mundo era maravilhoso! Como era bom acordar depois de repousar em uma cama macia, com travesseiros de penas de gansos e lençóis a cheiro de rosas. Seu banho, em uma jacuzzi de mármore preto azulado, também tinha cheiro e pétalas de rosas pela água. Seu roupão macio, todo trabalhado em fios de ouro lhe aqueceu a pele. Agora, ele tomaria seu café com creme e torradas com geleia de damasco. Tudo estava perfeito. Per-fei-to! Pelo menos, até ele ser lembrado que precisava ir à sala de reuniões do Governo.
- Isso é um absurdo! – Disse Donald Rude III assim que cruzou as portas, ignorando a comitiva de secretários e funcionários aglomerados. – Eu sou o Governador e preciso de meu descanso. Essas reuniões chatas poderiam ficar para depois do meio dia. – Ele suspirou, jogando-se na cadeira principal da sala e olhando para um homem careca e barbudo na janela. – Tommaso! Isso foi ideia sua. Não conseguiu dormir de novo pensando naqueles lindos bebezinhos?
Tommaso tinha sua expressão séria. Todas as manhãs, ele precisava ouvir tudo o que Rude tinha a falar quando convocava uma reunião.
- O senhor é o governador. É o senhor quem tem de saber o que acontece e o que deixa de acontecer em Mount Lee e em Death Valley. Aliás, tenho que lembrá-lo, que como o Governador, precisa levantar sua bunda da cama e agir como tal. – Disse, o olhando o tempo todo. Todos ficaram em silêncio. Anthony Van Dyck, o chefe da guarda de Mount Lee também estava no gabinete, abriu um sorriso de canto.
Rude tocou a têmpora esquerda.
- Não me lembre daquela droga de lugar. Se não fosse por eles existirem, não teríamos que pensar em um plano para destrui-los. – Rude deu um suspiro de pesar. Até parecia que se importava com Death Valley. – Fui muito benevolente em construir o muro para mantermo-nos seguros daqueles bichos.
Tommaso apenas levantou a cabeça, o olhando. Aquele homem era o cúmulo do ridículo com toda a sua prepotência. Mas, aguentá-lo, era o seu castigo. Ele fez um sinal para que os funcionários saíssem da sala. Van Dyck ficou, sabia bem do conteúdo da conversa que eles teriam. Tommaso jogou uma pasta na mesa a frente de Rude, contendo fotos de alguns soldados.
- Esses são os nossos homens enviados em disfarce para Death Valley. Eles devem comprovar as informações da revolução que o senhor disse existir. De acordo com Van Dyck são os melhores homens que ele pode indicar. – Terminou, olhando para o homem de terno e todo tatuado. Era sério e dificilmente falava alguma coisa. Tommaso voltou a Rude. – Todos tem interesse particular em realizar a missão.
- Ai Tommaso, como você é dramático. – Rude balançou a cabeça, olhando para seu assessor de governo. – Eu não quero saber desses três rapazes. Para mim, tanto faz quem são. Tudo o que eles têm de fazer é trazer as gêmeas Martínez para Mount Lee.
Tommaso olhou para o governador, querendo não se irritar por aquilo. Uma dúvida sempre surgiu em sua mente e ele nunca foi capaz de perguntar. Ele achou que o momento havia chego.
- O que eu fiz no passado mostrou a minha lealdade e a qual lado eu quero pertencer, mas por que escolher as duas como líderes de uma revolução que não existe? – Disse, sério e encarando Rude. – Conseguiu o que queria com Martínez, não é o bastante?
O olhar de Rude mudou. Se antes ele parecia um homem despreocupado, agora ele era alguém frio e totalmente focado.
- Eu sou o Governador e se eu quero aquelas aprendizes de revolução para mostrar ao povo que ninguém... Eu disse, ninguém, Tommaso, ninguém pode ir contra mim, eu as terei! – Rude se levantou da cadeira, tão perigoso quanto um Deus em toda a sua glória. – Estou sentindo cheiro de remorso. Vai chorar que nem um babaca, Tommaso? Se for, poupe o meu tapete persa das suas lágrimas falsas.
Tommaso fitou Rude o tempo todo. Sua vontade era de atirar na cabeça daquele homem ignorante, mas não poderia. Nada no passado voltaria. Ele se vendeu e teria que arcar com aquilo.
- Eu só devo alertá-lo que seu enorme ego e soberba nunca serão o suficiente, senhor. Muitos adorariam vê-lo caído. Continue a não se preocupar com sua cidade e ache que o senhor está bem protegido. Nós não estaremos aqui para sempre. – Disse, bem sério.
- Isso foi uma ameaça? – Perguntou o Governador com um sorriso irônico nos lábios. Van Dyck continuava em seu silêncio. – Não sou tolo, Tommaso. Se você foi capaz de trair sua própria família, sei que pode me trair também. – Ele piscou. – Ou quem sabe, eu apunhale você primeiro.

Rude deu as costas aos dois homens, voltando ao seu estado de bom humor. Ninguém poderia interferir no seu poder.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Death Valley - Capítulo 1 (Segunda Parte)


Raros eram os dias que faziam sol. Em Death Valley, a paisagem costumava ser cinza, com nuvens feias e pouco divertidas. Os prédios destruídos pela guerra não se recuperaram completamente depois de 20 anos.
Talvez, nem fossem. Viver ali não lhe dava direito de sonhar ou de desejar um futuro melhor. Isso, era para os moradores de Mount Lee. Quem vivia em Death Valley, condenados pelo grande muro que os separava do restante do mundo, nada podiam fazer. Portanto, quando o sol resolvia dar o ar se sua graça, Kaleessa gostava de aproveitar cada minuto dele. Estaria correndo por aí não fosse sua irmã gêmea ter encasquetado, de novo, com o conserto da roda gigante.
- Kat! – Kaleessa chamou vendo a irmã debruçada pela máquina que deveria fazer a geringonça de ferro retorcido funcionar. – Isso não vai dar certo. Sempre tenta, tenta e acaba ficando chateada depois.
- Desistir nunca é meu forte. – Falou Kathariny, cada vez mais confiante que conseguiria arrumar a enorme roda gigante. Ela sempre se perguntou o que a fez parar de funcionar. Tudo parecia bem, o problema era algum fio solto. Sempre que podia, testava uma combinação diferente. – Ah! Acho que agora vai.
Ela se levantou, toda feliz. Foi até o botão e o ligou, sorridente.
Nada... O sorriso foi se apagando. Kathariny fez bico, coçando a cabeça.
- Eu não sei qual o problema dela. Parece que não gosta de mim. – Por dentro, estava chateada, mas fazer o que. Olhou para a irmã. – O que está olhando? – Perguntou, curiosa.
Cruzando os braços, Kaleessa deu uma boa olhada na roda gigante.
- Isso não tem conserto. É como nossa cidade. Tem coisas que foram feitas para dar certo e outras que foram feitas para serem esquecidas. – Apontando para o muro ao longe, ela suspirou. Suas mãos estavam cobertas por luvas que deixavam os dedos de fora. Kaleessa sempre se perguntou como as mulheres de Mount Lee se vestiam. Com certeza, seu vestuário seria reprovado pelas gloriosas da sociedade superior. Torceu o nariz. – Ah! Vamos esquecer essa conversa idiota e irmos embora. O Velho deve estar precisando da gente. Está quase na hora dos caminhões de suprimentos chegarem.
Kathariny olhou para o grande muro e também tinha seus pensamentos sobre o lugar.
- Ele deve estar ocupado com os amigos dele. Estava bebendo igual a um louco aquele uísque velho achado no porão daquela casa abandonada.  – Ela fez uma careta. – Aquilo fede demais. Ecat! – Caminhando e dando risada, as duas foram andando em direção ao muro e encontrando-se com outros moradores de Death Valley. Eles estavam agitados, perto do grande portão. Kathariny suspirou. – Não sei por que eles têm esperanças disso. Nunca vêm coisas boas para nós.
- Acho que você disse a palavra chave: Esperança. – Kaleesa observou a multidão se formar. Alguns militares do exército de Mount Lee estavam andando de uma guarita para a outra no muro. O portão, sempre muito bem vigiado, estava com o dobro de soldados armados. – Espero que não haja confusão como a de ontem. Não quero ver outro homem sendo assassinado bem debaixo dos nossos narizes.
Todos ali conviviam com as mesmas condições precárias. Pouca comida, pouco conforto e sobrevivendo de restos enviados pelo "bom samaritano" governo que os condenou a aquela vida. Dois caminhões pretos se aproximaram enquanto o portão foi aberto. Homens, mulheres e crianças começaram a correr. Os soldados tentavam a todo custo fazer com que não houvesse brigas pela disputa dos mantimentos, roupas e móveis velhos. Qualquer quinquilharia que os moradores de Mount Lee não quisessem eram enviadas para o Death Valley.
As duas irmãs não tinham pressa. Elas preferiam que as crianças se fartassem com as frutas quase que podres e com um ou dois brinquedos velhos que apareciam. Kaleessa resolveu animar a irmã. Deu-lhe um empurrãozinho com o ombro.
- Será que veio a peça que você precisa para consertar o chuveiro do nosso cafofo? Sabe, tomar banho quente uma vez na vida, seria muito bom.
Kathariny se perdia olhando a animação de toda aquela gente com pouca coisa. Muitas delas não prestavam. Ela se sentia triste por ter que viver de restos, mas era a única coisa que os mantinham vivos. Ela olhou a irmã e sorriu.
- Tomara que tenha vindo. Qualquer coisinha para podermos nos se sentir bem. Aliás,  acho que pode vir mais livros. Você vai gostar. Vem.
Ela puxou a irmã e elas foram junto de todo aquele povo. O caminhão entrou e desta vez era enorme. Parecia que havia bastante coisa. As duas vasculharam um canto vazio, enquanto a maioria da população via comida. Como sempre, nada muito proveitoso. Alguns guardas tentaram arranjar briga.
- Hei! Hei! Nada disso. Eu estou vendo que está passando a mão nela. 
O guarda pensou em retrucar, mas uma voz o impediu.
- Se afaste dela!
Todos ficaram em silêncio e olharam na direção da voz. Um homem vestindo uma jaqueta sem a parte dos braços, bandana no rosto e capuz foi na direção dele. Ele abaixou a bandana e olhou para o guarda. A barba bem cheia tinha muitos fios grisalhos em meio aos aloirados e até suas sobrancelhas padeciam da velhice recém-chegada. Seus olhos eram marcados pelas rugas de preocupação, mas nem por isso, ele era menos ameaçador.
Aqueles que o seguiam também.
Um era enorme em tamanho e barriga, loiro e com cara de viking, seu apelido era Hook. O segundo, conhecido como Wolf, quando sorria parecia um louco.
- Com o meu povo você não vai mexer. Pode dizer ao seu líder que as regras são minhas por aqui. – Todos riram e ele olhou para todo o lixo que deixaram. – Temos alguma coisa boa? Hein? Se já deixaram todo seu resto, vão embora e nos deixem em paz.
Kaleessa sorriu ao ver o Velho ditar as regras. Todos os chamavam assim: Velho. Ninguém sabia seu nome de verdade. Também, nem fazia diferença.
Para as gêmeas, o Velho era bem mais que um líder amado e respeitado, era o pai que as criara, mesmo sem ter o mesmo sangue. Eram duas bebêzinhas quando ele as encontrou em meio à guerra e tiveram sorte dele as pegar para si e ter todo o cuidado de confortá-las em sua desgraçada de ter os pais mortos.
Não era segredo que Kaleessa e Kathariny eram as filhas gêmeas do antigo líder dos rebeldes, John Martínez. Um homem traído por seu braço direito, mas jamais esquecido da lembrança daqueles que ainda acreditavam em liberdade, justiça e igualdade. 
- Soltem tudo aí. – Gritou o guarda para o motorista do caminhão.
Na verdade, acabou-se transformando em uma afronta. O motorista apertou alguns botões e ergueu a caçamba, jogando toda a comida no chão. Mais empurra, empurra. Mais pessoas disputando um pedaço de pão duro e leite azedo. O Velho ficou muito irritado, mas Kaleessa segurou em seu braço.
- Deixe para lá. Eles só querem debochar de nós. Não vale a pena. – Ela fitou a irmã que estava com o olhar fixo no segundo caminhão de menor porte. Não era mais comida, muito menos objetos. Eram pessoas que eram empurradas pelos guardas. – Que droga! Mais exilados. Mais gente que o governo quer se livrar. – Resmungou Kaleessa.
 Todos olharam para o pequeno caminhão e só esperaram. A porta traseira foi aberta e alguns homens foram empurrados de lá. O Velho se colocou a frente, para olhar melhor todos eles. Estavam sujos e todos machucados. Mas, daqueles novatos três chamaram a atenção do Velho que sinalizou para Hook e Wolf. Aqueles três usavam calças rasgadas, regatas e botas. Um deles, o loiro, usava luvas como a de Kaleessa. Não demorou muito para Hook e Wolf cercarem os novatos.
- Quem são eles? - Perguntou o Velho, mostrando autoridade.
Dos três homens, o mais alto, que usava regata preta e tinha um cabelo tão grande e entrançado quanto o de Kathariny, foi quem deu um passo a frente. Seus olhos esverdeados, ora pareciam azuis, demonstravam o quanto era perigoso. O modo como ele olhou para o soldado que o empurrava foi estranho. Kaleessa prestou bem atenção e se arrepiou com o momento. O soldado não se fez de rogado.
- Esses são vagabundos, transgressores das regras de Mount Lee e, por isso, vieram morar no chiqueiro. – Ele gargalhou e olhou para o Velho. – São todos seus. 
O Velho era muito observador e desconfiado. Não era qualquer um que ele aceitava vindo de Mount Lee. Kaleessa engoliu seco. Todos ao redor estavam esperando pela aceitação ou não do Velho. Mas, alguns gritos interromperam seus pensamentos.
- Por favor! É para a minha filhinha! Ela está com muita fome.
Era uma mulher de joelhos, perto da pilha de comida, puxando um pacote de biscoitos da mão de outra mulher. Esta era magra, com o cabelo raspado na lateral e uma franja pontiaguda que cobria parte do lado esquerdo do rosto. Seu braço esquerdo era todo coberto por tatuagens, bem como sua perna direita.  Todos a conheciam como Ragdoll, a encrenqueira. 
- Eu também estou com fome, sua idiota. A lei aqui é simples, pegou, levou. – Se já não bastasse à arrogância e a falta de compaixão pela mulher que, aparentemente, estava doente, Ragdoll a chutou e tirou o pacote de biscoitos de sua mão.
- O que está fazendo? – Perguntou Kathariny, irritada ao ver o que Ragdoll fez. Ela se aproximou e tomou o pacote de biscoitos da mão da mulher. A senhora ainda chorava e olhava para as duas. – Como sempre, querendo bancário a rebeldezinha, não é Ragdoll? Enquanto estivermos aqui, sua "lei" não vai funcionar. – Kathariny se virou e ajudou a outra mulher a se levantar. – Leve para Izzy, Senhora Blaze. Eu sei que ela vai gostar.
A mulher, agradecida, olhou uma última vez para Ragdoll e foi embora, feliz. O Velho se aproximou junto de Kaleessa. Ele balançou a cabeça.
- Qual é o seu problema garota? – Perguntou ele. – Você nunca entende não é? Seu ego é muito grande para que possa entender como se vive aqui? – Ele olhou por toda a volta. – Não é a toa que estamos nesse lixo de mundo, vivendo de restos... Não era para ser assim. – Diz ele, um tanto receoso.
- Claro que não era para ser assim, seu velho babaca. - Ragdoll gritou a plenos pulmões. Cuspia as palavras, atraindo a atenção de todos. Os soldados se divertiam com o embate. – A culpa disso é do sangue ruim que elas aí... – Ela apontou para Kathariny e Kaleessa. – Tem correndo nas veias. Todo mundo aqui sabe que só somos exilados graças ao papaizinho assassino!
Kaleessa quis avançar sobre a encrenqueira. Só não fez porque a irmã gêmea a segurou.
- Sua mentirosa! Nosso pai não matou ninguém!
Ragdoll cruzou os braços, como se fosse a dona da verdade.
- Assassino sim. Matou o governador Rehwoldt. Todos sabem disso.
Era um fardo que as gêmeas carregavam e muitos dali, faziam questão de jogar na cara delas. Já estavam acostumadas, mas aquilo ainda doía demais. Kathariny levantou a cabeça.
-As pessoas falam, mas ninguém realmente sabe a verdade sobre nosso pai. Ninguém sabe o porquê ele realmente fez isso, se é que ele fez isso. O governador Rehwoldt não era flor que cheirasse... – Ela sorriu de canto. – Vai que você também seja uma assassina, Ragdoll. Qual crime que você cometeu?
Ragdoll se irritou com o comentário e quis partir para cima de Kathariny, mas uma outra mulher surgiu por suas costas e pulou nela. As duas mulheres começaram uma briga, onde todos foram separar. A outra mulher era Nikki, uma garota que o Velho adotou quando tinha sete anos, os pais adoeceram e morreram. Ela e Ragdoll nunca se deram bem, sempre em troca de farpas. Nikki ofegava, querendo bater em Ragdoll, mas as gêmeas as seguravam.
O Velho se pôs no meio das mulheres.
- Chega! Chega! Eu não aguento mais ter que ver tudo isso por uma simples idiotice. - Gritou ele, nervoso. Virou-se para Ragdoll. - Uma coisa que eu não quero é desavenças entre nosso povo. Se quiser mesmo procurar brigas, que vá procurar em outro canto garota. Não vou deixar que insulte as meninas porque elas fazem o certo. Vá junto com seu grupo e fique na sua.
Ragdoll odiava as gêmeas Martínez, mas não como odiava Nikki. E se havia algo que ela pudesse fazer para provocá-la era faria.
- Falou o senhor certinho. Você é tão hipócrita. – Disse Ragdoll, rindo e limpando a boca. O batom preto ficou borrado e ela ficou com a expressão ainda mais de revolta. – Finge proteger as pessoas, mas só se importa com essas gêmeas de sangue podre! Aposto que logo, logo elas serão como o pai foi. Um assassino!
O silêncio pairou no ar por alguns minutos. Todos olhavam de uma para a outra. As gêmeas suspiraram e abaixaram a  cabeça, sem saber o que responder mais aquelas provocações. Nikki olhou aquilo e não gostou. Olhou para Ragdoll.
- Pelo menos, elas tiveram um pai que, por mais que fosse um assassino, as amou. E você, é tão irritante que eu aposto que seus pais nem te queriam e deram graças a Deus por você ser jogada em Death Valley? – As pessoas olharam para a garota, que abriu um sorriso. – Vai lá chorar para os homens que você precisa abrir as pernas para ter proteção.
Ragdoll ficou irritada e os outros riram da última piada de Nikki. Ela foi embora, chutando tudo a sua frente. Nikki olhou para Kaleessa.
- Você viu? Você viu? Ela ficou irritadinha... Uuuuuhhhhhh.
                As pessoas riram, menos o Velho. Ao perceber que as pessoas se dispersaram, ele voltou para as três garotas que criava.
- Não gosto que fale assim  de ninguém.  Ninguém merece ser humilhado. – Ele se focou nas gêmeas. – Vocês estão bem?
Kathariny suspirou.
- Eu estou acostumada com isso já. - Falou, um tanto triste.
Kaleessa apenas deu de ombros. Nada do que Ragdoll havia dito era mentira.
Ou era.
Kaleessa nunca saberia. Seus olhos acabaram caindo sobre os três homens que haviam chego no comboio do caminhão. Na confusão, eles se distanciaram do grupo principal. Pelo visto, haviam achado algum rumo. Ou pelo menos, estavam dispostos a tentar.

Os soldados voltaram ao fechar ao portão e os caminhões foram embora. Algumas pessoas ainda dividiam os suprimentos. Death Valley era exatamente aquilo: Uma eterna confusão de pessoas perdidas, buscando sobreviver e não se afogar em um rio de desesperanças.