Houve
um momento de silêncio geral. Cada lado avaliava suas próprias chances em uma
briga. Se Jester tinha um canivete, Joshua, Derek e Sebástian eram muito mais
fortes fisicamente e, claro, tinham a vantagem do treinamento militar. O taco
de beisebol também ajudaria. Mas, Joshua tinha certeza que aquele, a gêmea
abusada sabia usar bem. Jester e outros pareceram chegar a uma conclusão. Manny
se afastando, ainda gritou.
- As putinhas vão pagar! Eu juro que
vão. – Logo depois do aviso, ele se virou e saiu correndo. Jester fez um gesto
com o canivete, simulando cortar o pescoço.
Kaleessa
deu um sorriso de canto.
- Bem vindos a Death Valley. Vocês
arrumaram uma baita confusão, hein?!
Joshua
estranhou a calma das duas mulheres.
- Nós? Vocês xingaram a mulher
deles.
- Não falamos nenhuma mentira. –
Kaleessa deu de ombros. Com a cabeça, indicou Sebástian. – Melhor esconder seu
cordão. Se for de prata mesmo, vai ter gente querendo roubar para trocar por
comida com os soldados.
Ele
cerrou o cenho, olhando o cordão e escondendo ele.
- Bom, acho então que devemos uma para vocês.
O que querem? Dinheiro, comida, o que em troca? – Perguntou.
Kathariny
riu, levantando o bastão e apontando para ele.
- Eu deveria lhe dar com isso na sua
cara por essa ofensa, mas acredito que por ser novatos, não sabem diferenciar as
pessoas. – Disse ela, se virando de costas. – Terão muito que aprender. – Ela
olhou para o grandão. – São bem saudáveis e educados para estar aqui. Quem são
vocês?
Derek
deu de ombros.
- Pessoas exiladas, que não se
adaptaram as leis do governo, fomos presos e mandados para cá. Acredito que
isso que aconteceu foi um belo jeito de dizer boas vindas ao inferno, não é?
Foi a
vez de Kaleessa rir.
- Acho que sim, mas escutem... Jester
e sua turma não estão brincando. Eles são perigosos. Precisam tomar cuidado.
Joshua
assentiu, analisando bem o perfil das duas irmãs. Notava-se a semelhança, mas
também as diferenças. O cabelo preto e a pele levemente bronzeada contrastavam
com os lábios finos e olhos meio fechadinhos. Mas, a de taco de beisebol na mão
era menor em estatura e com perfil mais punk. A outra, com uma mecha
avermelhada no meio da cabeleira negra, tinha o nariz mais arrebitado e sua voz
era pausada como a de uma professora.
- Vamos tomar cuidado. Obrigado. –
Respondeu Joshua. Era a chance de se aproximarem dos seus alvos. – Tem mais
alguma boa dica de como nos virarmos por aqui? Mount Lee é um saco, mas a
comida vem em pratos. – Ele se arrependeu do disse no segundo seguinte. –
Desculpe, não quis ofender.
Kathariny
apenas respirou fundo.
- Eu sei muito bem como é seu jeito de
comer lá, mas se querem comer aqui, vão ter que aprender a revirar o que os
guardas trazem todos os dias. Aquilo é o que tem para comer, já em relação aos
pratos, podem dar sorte de vir algum também. – Tocou no braço da irmã e se
viraram para ir embora.
- Esperem! – Disse Sebástian, quando
perceberam que elas iriam embora. Elas se viraram para ele. – Meu amigo não
quis ofender, nos desculpem... Estamos nervosos pela nossa primeira noite no
distrito. Nunca vivemos assim e é novo. Vamos precisar de ajuda. – Disse,
tentando ser convincente.
Kaleessa
cruzou os braços. No fundo, começou a se arrepender de ter interferido na briga
deles com Jester. Deviam ser aqueles mimadinhos que agiam com cartazes contra o
Governo de Rude. Não eram defensores da causa de verdade.
- Kathariny já disse tudo. Os
caminhões chegam todos os dias com a comida que sobra de Mount Lee. Vez ou
outra, vem alguns móveis, roupas bacanas. Tudo usado. Se você tiver sorte em
conseguir, ele é todo seu.
Joshua
já tinha ouvido falar de como era a vida em Death Valley. Campanhas de ajuda
para os renegados sempre começavam e acabavam como um piscar de olhos. Para os
que viviam com todas as regalias, pensar nos exilados era um passatempo de
gente que queria fingir ser benevolente. Dormiam melhor com suas consciências
achando que fizeram o bem a alguém.
- Certo. Comida e roupas vêm dos
caminhões. E a casa? Podemos pegar qualquer uma?
Kathariny
suspirou.
- Achem uma desocupada, se tiverem
sorte. – Ela apontou o bastão para Joshua. – Seu povo foi quem construiu tudo
isso aqui então, esteja preparado para qualquer coisa. Existem muitos prédios, casas
e praças abandonada. – Ela se afastou. – Boa sorte na nova vida de vocês.
– Disse, preparada para ir embora.
Kaleessa
deu uma última olhada para os três homens. Sentia-se arrepiada pela maneira que
o de olhos azuis a encarava. Suspirou e massageou a nuca. Teve que dar uma
corridinha para alcançar a irmã gêmea.
- Não entendo esses caras. Nascem em
berço de ouro, comendo caviar e bebendo champanhe. Com toda a sorte do mundo e
fazem merda para acabar nesse lugar. – Ela fez um muxoxo com a boca. – Viu o
que o loirinho disse? Eles eram contra o governo. O que eles eram contra? A não
lavarem suas bundas todos os dias?! Essa gente de Mount Lee é muito engraçada.
Kathariny
apenas suspirou.
- O melhor é ficarmos mesmo longe
deles. Já chegaram trazendo problemas, sinal que não são boa gente. – Elas
caminharam por um bom tempo, mas o tempo todo, Kathariny olhava para trás. Até
que parou e olhou para a irmã. – Está sentindo isso?
Kaleessa
assentiu.
- Os idiotas estão nos seguindo. Um
deles tropeçou naquela roda de ônibus que fica na rua 4. – Ela estava se
segurando para não rir. – O que quer fazer?
Kathariny
não disse nada, apenas acenou.
Não
demorou muito e o trio apareceu, olhando de um lado para o outro. Um suspiro
veio de Sebástian.
- Jurei que elas tinham vindo por
aqui. – Disse ele, meio perdido. – E agora?
- E agora que vocês irão nos explicar
o que realmente estão querendo. – Falou Kathariny, aparecendo, com os braços
cruzados e olhando os três. Kaleessa segurava o bastão.
Os
três se viraram, assustados. Um olhou para o outro. Sorte que não falaram nada
sobre a missão.
- Só queremos um lugar para ficar até
acharmos algo aqui. Uma pequena ajuda de como viver aqui. Só isso.
Joshua
sentiu-se no dever de tomar conta da situação. Ele ergueu as mãos, como se
pedisse trégua.
- Olha, tem todo o direito de ficarem
bravas. Começamos mal de manhã e também não fomos legais agora a pouco. É
que... Ahn, estamos confusos. Lá em Mount Lee, a gente tentou fazer uma
revolução contra o governo. Juro! Somos contra o Rude. Tem famílias lá que
estão sendo escravizadas para que seus "defeitos" – Ele fez um sinal
de aspas com as mãos. – Não sejam revelados e eles jogados aqui em Death Valley.
- Desde que eu era pequena, chega
gente como vocês aqui. No fim, acabam sendo babacas e morrem porque se metem
com valentões como Jester. – Kaleessa falou.
- Não queremos morrer. Vamos aprender
a viver aqui. – Joshua olhou Kathariny. – Só precisamos de ajuda. Por favor.
As
duas irmãs olharam os homens. Eles pareciam mesmo perdidos e não querendo tirar
vantagens. Um suspiro e Kathariny deu o decreto.
- Amanhã, bem cedo, espero vocês no
centro. Os caminhões chegarão nesse horário. - Elas passam pelos três. – Se
atrasarem, esqueçam qualquer coisa vindo da nossa parte. – Antes de ir, ela
ainda disse. – Continuem caminhando por ali, do lado direito da rua há uma
antiga Igreja e podem dormir por lá. Falem com Nemeth, ele mora na sacristia e
digam que fomos nós quem os mandamos para lá.
Os
três ficaram em silencio olhando o caminho que as gêmeas tomaram para ir
embora. Certos de que foram embora, Sebástian soltou.
- São elas que estão tramando uma
guerra com Mount Lee?





