CAPÍTULO 3
A cor
do céu ao anoitecer em Death Valley era como um borrão de tristeza em uma tela
de um quadro. Meio cinza, meio laranja, com tons em vermelhos e quase, quase
sendo dragados pela escuridão da noite. A lua não tinha dado o ar de sua
presença, camuflada em alguma nuvem.
Joshua
não conseguia ficar dentro do apartamento de Marek. Aquele acúmulo de móveis
mal acabados e madeira sendo reciclada, o lembrava mais o cafofo de um rato.
Acostumado a Mount Lee, bagunça e desordem não fazia parte de si.
Derek
e Sebástian o seguiram até a rua. Alguns postes de iluminação não estavam
acessos e se não fosse pelas janelas dos prédios, a maioria a base de luz de
velas, tudo estaria um breu. Joshua percebeu também que era frio. Sua regata
preta deixava boa parte de seus músculos a mostra.
- Preciso arrumar um casaco. – Ele
comentou, meio entretido com a fachada de um prédio mais a frente. – E um jeito
de arrumar comida. Marek só tem ovo e leite na geladeira. Meu estômago revira
só de pensar em comer isso de novo.
Aquele
lugar era sinistro à noite, além de ser muito escuro. Eles não sabiam se iriam
sobreviver tanto tempo naquele lugar, mas se era para conquistarem seus
objetivos, fazer o que?! Derek também esfregava os braços.
- Acho que se pedirmos um pouco de
comida ao tal do Velho, talvez, possam nos ajudar. Acredito que seria uma boa
jogada para uma aproximação. – Disse ele, olhando para trás toda hora.
Sebástian
pensava, sua barriga roncava de fome.
- O problema não é o Velho nos dar
comida. Vocês viram. Todo o lixo de Mount Lee vem para cá. Vamos ter que
acostumar a procurar comida como o pessoal daqui. – Ele respirou fundo. – Se
estão mesmo tramando algo, é de se explicar. Eu não aguentaria ficar aqui muito
tempo.
Joshua
deu uma olhada para Sebástian e suspirou. O amigo tinha razão quanto ao fato de
eles terem que se acostumar com as regras de Death Valley. Precisavam disso e
precisavam da cabeça das gêmeas Martínez entregues em uma bandeja de prata ao
governador Rude.
- Se aquelas garotas estão armando um
motim, não vai ser tão difícil assim descobrir. Tudo o que temos que fazer é...
- HEI! HEI VOCÊS FILHOS DE UMA PUTA! –
Uma voz interrompeu a fala de Joshua com os amigos. – O que estão fazendo na
nossa rua?
Joshua
precisou estreitar os olhos para ver melhor o grupinho que se aproximava
em meio à noite. O que vinha a frente, nem era muito alto. De calças largas,
botas e casaco que cobria boa parte do corpo, ele poderia ser um habitante de
Mount Lee não fosse o linguajar. Do lado esquerdo, vinha um negro, com barba
grande, meio suja. O cabelo era do tipo "power", coisa mais antiga
que os anos 80. Do lado direito, outro possível habitante de Mount Lee, com
riscos nas laterais da cabeça e cabelo amarrado em um coque bem no alto.
- Acho que vocês estão falando com as
pessoas erradas. – Disse Joshua, tentando não entrar em briga.
- Ih os novatinhos são bebês! – Riu o
que parecia ser o líder do trio. – Vão chorar pros soldados amanhã que querem
voltar pra casinha que chutou vocês, vão?!
Sebástian
olhou de um para outro.
- Escutem, não queremos problemas
aqui. Queremos paz e nada mais que isso. – Disse, tentando manter a
calma.
O de
cabelo em coque riu.
- Entenda garoto, aqui o que
você não terá é paz. Aqui só os mais fortes conseguem sobreviver e quem segue
aquele Velho filho da mãe, acaba ainda mais na sarjeta.
Derek
estreitou os olhos.
- O que tem a ver aquele Velho?
Um
com o cabelo mais certinho apareceu. Andou devagar e analisou os três homens.
- Aqui temos regras. Ou segue
nosso lado ou segue o do Velho. Queremos algo melhor para o nosso povo, já que somos
renegados pela sociedade gloriosa de Mount Lee, então aconselho vocês a
escolher um lado. Prevalece quem é mais esperto. – Ele estendeu a mão para Joshua.
– Meu nome é Jester, esses são Manny e Ronnie.
Ah!
Que beleza... Mais escolhas de lados. Joshua quase riu com aquilo. Bando de
idiotas! Se soubessem quem eles eram jamais estariam falando assim. Criar
amizades era algo que só os atrasaria.
- Eu sou o Joshua, estes são Derek e
Sebástian. – Ele apontou os dois amigos, mas não cumprimentou Jester. – Eu
agradeço as dicas, mas nos viramos sozinhos.
Jester
ergueu a sobrancelha bem desenhada, mas foi Manny quem deu alguns passos à
frente, ficando cara a cara com Joshua. Se fosse um cachorro teria mijado bem
ali demarcando o território.
- Se não querem nossa ajuda, também
não podem ficar aqui sem pagar por isso. – O cara tinha uma malícia na fala que
era irritante. Ele foi caminhando para o lado, passando a língua nos lábios
olhando Sebástian de cima a baixo. – O que trouxeram de Mount Lee? Tem algum
ouro ai? Esse cordão vale grana? – Manny tentou pegar o cordão de prata que
pendia do pescoço de Sebástian.
Ele
afastou a mão de Manny, acabando em uma chave de braço nele. O cara gritou.
- Acho melhor não se meter conosco.
Não temos nada que sejam do interesse de vocês e se não querem problemas, acho
melhor ficar longe. – Disse, em tom de ameaça.
Jester
foi pra cima dele, mas Joshua entrou na sua frente.
- Vocês não entendem com quem estão
mexendo. Não temos medo e se for preciso... – Ele e Ronnie tiram dos bolsos um
canivete cada um. – Vamos lutar.
- Não. – Disse uma voz, chamando a
atenção de todos. – Ninguém aqui vai fazer nada ou teremos que agir da nossa
forma, ouviu Jester? – Era Kathariny, com as mãos na cintura. Ao seu lado,
Kaleessa só olhava para a confusão.
Joshua
fitou por uns segundos as duas garotas. Em meio à parca luminosidade, elas
conseguiam destaque. Um detalhe chamou a atenção dele: Uma delas tinha um taco
de beisebol apoiado contra o chão. A outra, mais observadora, pareceu procurar
por mais gente.
- O Velho está há muito tempo
querendo dar uma lição em vocês e sua putinha, Ragdoll, cansou nossa paciência
hoje. Se não querem se ver com Hook, Wolf e o Velho, sugiro que caiam
fora.
Manny
inflou ar nos pulmões, depois de ter sido solto por Sebástian.
- As únicas putinhas aqui são vocês, Martínez!
Joshua
não gostou daquilo.
- Vão embora cara. Deixem a gente e
elas em paz.
Jester
foi se aproximando das duas, parando pouco longe delas.
- Acredito que não queiram sujar as
mãos como o paizinho de vocês fez. - Disse ele, começando a apontar o canivete
para elas. – Soubemos o que fizeram a Ragdoll mais cedo e é inaceitável. Acho
que seria legal mostrar o que acontece quando mexem conosco.
Kathariny
riu.
- Vocês e o mesmo blá-blá-blá de
sempre. Não somos nós que temos sangue ruim, são vocês que acham mandar em
alguma. A vergonha alheia de Death Valley... Os caras que dividem uma mesma
mulher e usam ela para ganhar coisas dos soldados. – Kathariny procurou por
alguém. – Cadê Ragdoll? Transou com quantos hoje?
Jester
e os outros dois arregalaram os olhos e Ronnie andou na direção das duas, mas
foi Derek quem entrou na frente.
- Você e esse projeto de canivete não
terão vantagens sobre nós. Acho melhor irem embora e deixar a todos nós em
paz. É uma boa opção.

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