Em algum lugar do mundo...
Era uma armadilha. Ele devia ter desconfiado desde o início. Mas, John Martínez,
o líder do partido de esquerda, sempre confiou demais nas pessoas. Agora, ele
corria contra o tempo, no meio de uma cidade devastada pela guerra, para salvar
seu bem mais precioso: sua família.
Tudo começou há anos atrás. Quando a violência tomou conta de Mount Lee e
a polícia, que de tão corrupta, já não era mais confiável, nem eficaz. O
governo da época não tinha o que fazer. Quanto mais tentava coibir as ações
criminosas, mais se atrapalhava e perdia apoio. Então, militares de altas
patentes, políticos mais conservadores e uma boa parte dos ricos da cidade se
uniram em prol de uma mudança.
Ou golpe.
O governo descontrolado foi substituído por um opressor, punitivo a quem
fosse contrário a suas novas regras.
A segregação socioeconômica foi apenas o início. Vieram depois à mordaça
aos meios de comunicação, o fechamento de jornais e revista que denunciavam as
truculências do novo governo, as prisões aos chamados rebeldes e a tortura.
Leis foram mudadas. Leis foram extintas. Mount Lee tornou-se uma falsa
democracia. O direito de ir e vir já não era tão simples. Mandava quem podia,
obedecia quem tinha juízo.
E quem não tinha?
O povo mais afetado tentou se unir. Vários levantes, aos longos dos anos
que se passavam, foram surgindo. Mas, nenhum tão forte quanto ao de Martínez.
Suas palavras entusiastas de um período de paz, de união, de acordo acalentavam
corações.
Houve até quem do governo se interessasse pelas propostas do jovem líder
dos rebeldes. Era um visionário, mas era alguém que o povo escutava. Alguém que
queria fazer bem mais que pegar em armas. Martínez sonhava com a justiça.
E foi pelos seus sonhos que naquela noite, ele pagou caro.
O atual governador era um homem facilmente manipulado por todos. Quase
que como uma marionete escolhida apenas pelo seu físico atlético, bigode bem
cortado e enrolado nas pontas e sua voz de barítono. Marquee Rehwoldt não
governava, ele atuava.
Pelo menos, se Martínez soubesse disso antes de acreditar que o
governador se interessou pelo cessar da guerra e pelo seu manifesto de paz, ele
não teria caído na armadilha de entrar no gabinete do governo, na calada da
noite, e descobrir o homem com um tiro bem no meio da testa.
Os alarmes soaram e é claro que a culpa cairia sobre ele.
Em meio a sua fuga, sua corrida para a salvação, a ordem de um ataque a
parte da cidade onde os rebeldes se concentravam, foi dada pelos militares. Com
o governador, supostamente, morto por seu líder, os rebeldes seriam
massacrados.
E foram.
Bombas explodiram causando um imenso clarão no céu escuro. Casas vieram
abaixo. Famílias foram mutiladas. Balas de arma de fogo atingiam a quem
encontrasse pela frente. Soldados sem pena. Povo sofrendo.
Martínez não podia ajudar a todos. O choro, as lamúrias, os pedidos de
socorro passavam a sua volta como um borrão. Ele até tentou, mas sua cabeça
valeria mais de um milhão de moedas e sim, tinha sua família. Sua bela família.
A esposa Candice e suas filhinhas gêmeas de dez meses de vida.
A casa de Martínez ficava bem no meio da área tomada pelos rebeldes. Um
ponto chave da cidade. Um reduto de pobres e excluídos. Quando ele era menino,
vivia correndo pelos becos, então, se esconder para ele não foi tão difícil
assim. Ele só não esperava entrar dentro de casa e encontrar com o homem que
deveria ser seu braço direito apontando uma arma para a cabeça de Candice.
- Tommaso! – Martínez
gritou.
O homem com uma única faixa de
cabelo na cabeça, barba rala e jaqueta jeans olhou para ele com aparente calma.
Por causa das bombas e de toda a
confusão do lado de fora, ninguém ouviu os disparos dentro da casa. Muito
menos, o choro das crianças no andar de cima.

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