quarta-feira, 14 de junho de 2017

Death Valley - Prólogo


Em algum lugar do mundo...

Era uma armadilha. Ele devia ter desconfiado desde o início. Mas, John Martínez, o líder do partido de esquerda, sempre confiou demais nas pessoas. Agora, ele corria contra o tempo, no meio de uma cidade devastada pela guerra, para salvar seu bem mais precioso: sua família.
Tudo começou há anos atrás. Quando a violência tomou conta de Mount Lee e a polícia, que de tão corrupta, já não era mais confiável, nem eficaz. O governo da época não tinha o que fazer. Quanto mais tentava coibir as ações criminosas, mais se atrapalhava e perdia apoio. Então, militares de altas patentes, políticos mais conservadores e uma boa parte dos ricos da cidade se uniram em prol de uma mudança.
Ou golpe.
O governo descontrolado foi substituído por um opressor, punitivo a quem fosse contrário a suas novas regras.
A segregação socioeconômica foi apenas o início. Vieram depois à mordaça aos meios de comunicação, o fechamento de jornais e revista que denunciavam as truculências do novo governo, as prisões aos chamados rebeldes e a tortura.
Leis foram mudadas. Leis foram extintas. Mount Lee tornou-se uma falsa democracia. O direito de ir e vir já não era tão simples. Mandava quem podia, obedecia quem tinha juízo.
E quem não tinha?
O povo mais afetado tentou se unir. Vários levantes, aos longos dos anos que se passavam, foram surgindo. Mas, nenhum tão forte quanto ao de Martínez. Suas palavras entusiastas de um período de paz, de união, de acordo acalentavam corações.
Houve até quem do governo se interessasse pelas propostas do jovem líder dos rebeldes. Era um visionário, mas era alguém que o povo escutava. Alguém que queria fazer bem mais que pegar em armas. Martínez sonhava com a justiça.
E foi pelos seus sonhos que naquela noite, ele pagou caro.
O atual governador era um homem facilmente manipulado por todos. Quase que como uma marionete escolhida apenas pelo seu físico atlético, bigode bem cortado e enrolado nas pontas e sua voz de barítono. Marquee Rehwoldt não governava, ele atuava. 
Pelo menos, se Martínez soubesse disso antes de acreditar que o governador se interessou pelo cessar da guerra e pelo seu manifesto de paz, ele não teria caído na armadilha de entrar no gabinete do governo, na calada da noite, e descobrir o homem com um tiro bem no meio da testa.
Os alarmes soaram e é claro que a culpa cairia sobre ele.
Em meio a sua fuga, sua corrida para a salvação, a ordem de um ataque a parte da cidade onde os rebeldes se concentravam, foi dada pelos militares. Com o governador, supostamente, morto por seu líder, os rebeldes seriam massacrados.
E foram.
Bombas explodiram causando um imenso clarão no céu escuro. Casas vieram abaixo. Famílias foram mutiladas. Balas de arma de fogo atingiam a quem encontrasse pela frente. Soldados sem pena. Povo sofrendo.
Martínez não podia ajudar a todos. O choro, as lamúrias, os pedidos de socorro passavam a sua volta como um borrão. Ele até tentou, mas sua cabeça valeria mais de um milhão de moedas e sim, tinha sua família. Sua bela família. A esposa Candice e suas filhinhas gêmeas de dez meses de vida.
A casa de Martínez ficava bem no meio da área tomada pelos rebeldes. Um ponto chave da cidade. Um reduto de pobres e excluídos. Quando ele era menino, vivia correndo pelos becos, então, se esconder para ele não foi tão difícil assim. Ele só não esperava entrar dentro de casa e encontrar com o homem que deveria ser seu braço direito apontando uma arma para a cabeça de Candice.
- Tommaso! – Martínez gritou.
                O homem com uma única faixa de cabelo na cabeça, barba rala e jaqueta jeans olhou para ele com aparente calma.
                Por causa das bombas e de toda a confusão do lado de fora, ninguém ouviu os disparos dentro da casa. Muito menos, o choro das crianças no andar de cima. 

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