O dia
custou a passar. As gêmeas Martínez seguiram sua rotina ajudando aqueles que
precisavam. No final da tarde, o momento de voltar para casa chegou. A
caminhada pareceu longa e os pensamentos nas palavras de Ragdoll deixou as
irmãs muito caladas. O Velho odiava ver as meninas assim. Até Nikki tentou, mas
elas não se animaram. Wolfe havia achado algumas coisas e preparado uma boa
sopa que quase ninguém comeu.
Kaleessa
foi para o quarto, enquanto Kathariny se enfiou em um livro sobre carros, achado
por Hook alguns dias atrás, mas aquilo a deixou inquieta. Deixou o livro de
lado e foi atrás da irmã. O quarto delas
era dividido por um lençol esticado apenas para que cada uma tivesse sua
privacidade respeitada. Quando Kathariny puxou o pano, percebeu o que a irmã estava
fazendo. Kaleessa tinha um livro nas mãos. Não um livro qualquer, mas sim
um dos diários de seu pai. Ela encostou-se à porta e cruzou os braços.
- Se tivesse dez anos, o Velho te
deixaria de castigo por isso. – Falou, assustando a irmã.
Ela
até tentou escondeu o diário, mas não dava mais tempo. Encolheu-se na cama de
colchão duro.
- Vai me dedurar? Eu não tenho mais
dez anos e não tem muito coisa para ele me tirar além dos diários e as fotos
que sobraram do nosso pai. – Kaleesa comentou, ainda muito triste. Suspirou tão
fundo, que parecia carregar o peso de toda acusação sobre a memória do pai nos
ombros. – Eu leio isso aqui desde criança, Kat. Papai nunca falou em matar
ninguém. Ele só queria trazer a união de todas as pessoas, fazer o governo
aceitar a oposição pacificamente. Eu... Eu não entendo como... Como ele pode
ter matado o governador.
Kathariny
suspirou e se aproximou da irmã, sentando-se ao lado dela no colchão.
- Eu também leio isso desde criança.
Entendo suas dúvidas. É difícil saber qual foi o momento que papai mudou de
lado. Ele era um homem tão dedicado às causas sociais, a luta pela igualdade. –
Ela sorriu. – Viu que nesse diário ele fala de nós?
Uma
lágrima escorreu pelo rosto de Kaleessa.
- Aham, eu vi... Disse que éramos
como sol e a lua. Porque quando uma chorava, a outra dormia e vice-versa. – As
duas irmãs riram e Kaleessa acariciou a capa do diário. – Eu queria tanto ter
crescido com ele e com a mamãe. Tanto!
- Eu também. – Falou Kathariny,
triste. Ela olhou e pegou o diário, procurando uma página. – Não sou detetive,
mas eu tenho uma teoria. Podem ter armado para ele. Quando eu li pela primeira
vez, eu fiquei me perguntando quem era esse homem. – Ela mostrou a página para
a irmã.
Kaleessa
já havia visto uma foto daquele cara, mas entre tantas lembranças do pai e da
mãe, ela nunca se importou muito. O homem na foto estava sorrindo, bem ao lado
de Martínez. Candice, a mãe das gêmeas, estava com um barrigão e também sorria.
Pareciam estar felizes.
- Já tentou perguntou ao Velho? -
Kathariny revirou os olhos e Kaleessa riu. - É, péssima ideia, esqueça. – Ela
apontou uma linha escrita. – Aqui, papai o chama de "brow". Deviam
ser amigos. Muito amigos.
- Sim, mas eu tenho as minhas
desconfianças. – Com um suspiro, Kathariny jogou o diário de lado e
voltou a olhar a irmã. – Lembre-se sempre que devemos acreditar em tudo que papai
nos deixou. Ele foi um herói. O que importa, é o que pensamos sobre ele. –
E deu um abraço na irmã.

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