terça-feira, 20 de junho de 2017

Death Valley - Capítulo 1 (Segunda Parte)


Raros eram os dias que faziam sol. Em Death Valley, a paisagem costumava ser cinza, com nuvens feias e pouco divertidas. Os prédios destruídos pela guerra não se recuperaram completamente depois de 20 anos.
Talvez, nem fossem. Viver ali não lhe dava direito de sonhar ou de desejar um futuro melhor. Isso, era para os moradores de Mount Lee. Quem vivia em Death Valley, condenados pelo grande muro que os separava do restante do mundo, nada podiam fazer. Portanto, quando o sol resolvia dar o ar se sua graça, Kaleessa gostava de aproveitar cada minuto dele. Estaria correndo por aí não fosse sua irmã gêmea ter encasquetado, de novo, com o conserto da roda gigante.
- Kat! – Kaleessa chamou vendo a irmã debruçada pela máquina que deveria fazer a geringonça de ferro retorcido funcionar. – Isso não vai dar certo. Sempre tenta, tenta e acaba ficando chateada depois.
- Desistir nunca é meu forte. – Falou Kathariny, cada vez mais confiante que conseguiria arrumar a enorme roda gigante. Ela sempre se perguntou o que a fez parar de funcionar. Tudo parecia bem, o problema era algum fio solto. Sempre que podia, testava uma combinação diferente. – Ah! Acho que agora vai.
Ela se levantou, toda feliz. Foi até o botão e o ligou, sorridente.
Nada... O sorriso foi se apagando. Kathariny fez bico, coçando a cabeça.
- Eu não sei qual o problema dela. Parece que não gosta de mim. – Por dentro, estava chateada, mas fazer o que. Olhou para a irmã. – O que está olhando? – Perguntou, curiosa.
Cruzando os braços, Kaleessa deu uma boa olhada na roda gigante.
- Isso não tem conserto. É como nossa cidade. Tem coisas que foram feitas para dar certo e outras que foram feitas para serem esquecidas. – Apontando para o muro ao longe, ela suspirou. Suas mãos estavam cobertas por luvas que deixavam os dedos de fora. Kaleessa sempre se perguntou como as mulheres de Mount Lee se vestiam. Com certeza, seu vestuário seria reprovado pelas gloriosas da sociedade superior. Torceu o nariz. – Ah! Vamos esquecer essa conversa idiota e irmos embora. O Velho deve estar precisando da gente. Está quase na hora dos caminhões de suprimentos chegarem.
Kathariny olhou para o grande muro e também tinha seus pensamentos sobre o lugar.
- Ele deve estar ocupado com os amigos dele. Estava bebendo igual a um louco aquele uísque velho achado no porão daquela casa abandonada.  – Ela fez uma careta. – Aquilo fede demais. Ecat! – Caminhando e dando risada, as duas foram andando em direção ao muro e encontrando-se com outros moradores de Death Valley. Eles estavam agitados, perto do grande portão. Kathariny suspirou. – Não sei por que eles têm esperanças disso. Nunca vêm coisas boas para nós.
- Acho que você disse a palavra chave: Esperança. – Kaleesa observou a multidão se formar. Alguns militares do exército de Mount Lee estavam andando de uma guarita para a outra no muro. O portão, sempre muito bem vigiado, estava com o dobro de soldados armados. – Espero que não haja confusão como a de ontem. Não quero ver outro homem sendo assassinado bem debaixo dos nossos narizes.
Todos ali conviviam com as mesmas condições precárias. Pouca comida, pouco conforto e sobrevivendo de restos enviados pelo "bom samaritano" governo que os condenou a aquela vida. Dois caminhões pretos se aproximaram enquanto o portão foi aberto. Homens, mulheres e crianças começaram a correr. Os soldados tentavam a todo custo fazer com que não houvesse brigas pela disputa dos mantimentos, roupas e móveis velhos. Qualquer quinquilharia que os moradores de Mount Lee não quisessem eram enviadas para o Death Valley.
As duas irmãs não tinham pressa. Elas preferiam que as crianças se fartassem com as frutas quase que podres e com um ou dois brinquedos velhos que apareciam. Kaleessa resolveu animar a irmã. Deu-lhe um empurrãozinho com o ombro.
- Será que veio a peça que você precisa para consertar o chuveiro do nosso cafofo? Sabe, tomar banho quente uma vez na vida, seria muito bom.
Kathariny se perdia olhando a animação de toda aquela gente com pouca coisa. Muitas delas não prestavam. Ela se sentia triste por ter que viver de restos, mas era a única coisa que os mantinham vivos. Ela olhou a irmã e sorriu.
- Tomara que tenha vindo. Qualquer coisinha para podermos nos se sentir bem. Aliás,  acho que pode vir mais livros. Você vai gostar. Vem.
Ela puxou a irmã e elas foram junto de todo aquele povo. O caminhão entrou e desta vez era enorme. Parecia que havia bastante coisa. As duas vasculharam um canto vazio, enquanto a maioria da população via comida. Como sempre, nada muito proveitoso. Alguns guardas tentaram arranjar briga.
- Hei! Hei! Nada disso. Eu estou vendo que está passando a mão nela. 
O guarda pensou em retrucar, mas uma voz o impediu.
- Se afaste dela!
Todos ficaram em silêncio e olharam na direção da voz. Um homem vestindo uma jaqueta sem a parte dos braços, bandana no rosto e capuz foi na direção dele. Ele abaixou a bandana e olhou para o guarda. A barba bem cheia tinha muitos fios grisalhos em meio aos aloirados e até suas sobrancelhas padeciam da velhice recém-chegada. Seus olhos eram marcados pelas rugas de preocupação, mas nem por isso, ele era menos ameaçador.
Aqueles que o seguiam também.
Um era enorme em tamanho e barriga, loiro e com cara de viking, seu apelido era Hook. O segundo, conhecido como Wolf, quando sorria parecia um louco.
- Com o meu povo você não vai mexer. Pode dizer ao seu líder que as regras são minhas por aqui. – Todos riram e ele olhou para todo o lixo que deixaram. – Temos alguma coisa boa? Hein? Se já deixaram todo seu resto, vão embora e nos deixem em paz.
Kaleessa sorriu ao ver o Velho ditar as regras. Todos os chamavam assim: Velho. Ninguém sabia seu nome de verdade. Também, nem fazia diferença.
Para as gêmeas, o Velho era bem mais que um líder amado e respeitado, era o pai que as criara, mesmo sem ter o mesmo sangue. Eram duas bebêzinhas quando ele as encontrou em meio à guerra e tiveram sorte dele as pegar para si e ter todo o cuidado de confortá-las em sua desgraçada de ter os pais mortos.
Não era segredo que Kaleessa e Kathariny eram as filhas gêmeas do antigo líder dos rebeldes, John Martínez. Um homem traído por seu braço direito, mas jamais esquecido da lembrança daqueles que ainda acreditavam em liberdade, justiça e igualdade. 
- Soltem tudo aí. – Gritou o guarda para o motorista do caminhão.
Na verdade, acabou-se transformando em uma afronta. O motorista apertou alguns botões e ergueu a caçamba, jogando toda a comida no chão. Mais empurra, empurra. Mais pessoas disputando um pedaço de pão duro e leite azedo. O Velho ficou muito irritado, mas Kaleessa segurou em seu braço.
- Deixe para lá. Eles só querem debochar de nós. Não vale a pena. – Ela fitou a irmã que estava com o olhar fixo no segundo caminhão de menor porte. Não era mais comida, muito menos objetos. Eram pessoas que eram empurradas pelos guardas. – Que droga! Mais exilados. Mais gente que o governo quer se livrar. – Resmungou Kaleessa.
 Todos olharam para o pequeno caminhão e só esperaram. A porta traseira foi aberta e alguns homens foram empurrados de lá. O Velho se colocou a frente, para olhar melhor todos eles. Estavam sujos e todos machucados. Mas, daqueles novatos três chamaram a atenção do Velho que sinalizou para Hook e Wolf. Aqueles três usavam calças rasgadas, regatas e botas. Um deles, o loiro, usava luvas como a de Kaleessa. Não demorou muito para Hook e Wolf cercarem os novatos.
- Quem são eles? - Perguntou o Velho, mostrando autoridade.
Dos três homens, o mais alto, que usava regata preta e tinha um cabelo tão grande e entrançado quanto o de Kathariny, foi quem deu um passo a frente. Seus olhos esverdeados, ora pareciam azuis, demonstravam o quanto era perigoso. O modo como ele olhou para o soldado que o empurrava foi estranho. Kaleessa prestou bem atenção e se arrepiou com o momento. O soldado não se fez de rogado.
- Esses são vagabundos, transgressores das regras de Mount Lee e, por isso, vieram morar no chiqueiro. – Ele gargalhou e olhou para o Velho. – São todos seus. 
O Velho era muito observador e desconfiado. Não era qualquer um que ele aceitava vindo de Mount Lee. Kaleessa engoliu seco. Todos ao redor estavam esperando pela aceitação ou não do Velho. Mas, alguns gritos interromperam seus pensamentos.
- Por favor! É para a minha filhinha! Ela está com muita fome.
Era uma mulher de joelhos, perto da pilha de comida, puxando um pacote de biscoitos da mão de outra mulher. Esta era magra, com o cabelo raspado na lateral e uma franja pontiaguda que cobria parte do lado esquerdo do rosto. Seu braço esquerdo era todo coberto por tatuagens, bem como sua perna direita.  Todos a conheciam como Ragdoll, a encrenqueira. 
- Eu também estou com fome, sua idiota. A lei aqui é simples, pegou, levou. – Se já não bastasse à arrogância e a falta de compaixão pela mulher que, aparentemente, estava doente, Ragdoll a chutou e tirou o pacote de biscoitos de sua mão.
- O que está fazendo? – Perguntou Kathariny, irritada ao ver o que Ragdoll fez. Ela se aproximou e tomou o pacote de biscoitos da mão da mulher. A senhora ainda chorava e olhava para as duas. – Como sempre, querendo bancário a rebeldezinha, não é Ragdoll? Enquanto estivermos aqui, sua "lei" não vai funcionar. – Kathariny se virou e ajudou a outra mulher a se levantar. – Leve para Izzy, Senhora Blaze. Eu sei que ela vai gostar.
A mulher, agradecida, olhou uma última vez para Ragdoll e foi embora, feliz. O Velho se aproximou junto de Kaleessa. Ele balançou a cabeça.
- Qual é o seu problema garota? – Perguntou ele. – Você nunca entende não é? Seu ego é muito grande para que possa entender como se vive aqui? – Ele olhou por toda a volta. – Não é a toa que estamos nesse lixo de mundo, vivendo de restos... Não era para ser assim. – Diz ele, um tanto receoso.
- Claro que não era para ser assim, seu velho babaca. - Ragdoll gritou a plenos pulmões. Cuspia as palavras, atraindo a atenção de todos. Os soldados se divertiam com o embate. – A culpa disso é do sangue ruim que elas aí... – Ela apontou para Kathariny e Kaleessa. – Tem correndo nas veias. Todo mundo aqui sabe que só somos exilados graças ao papaizinho assassino!
Kaleessa quis avançar sobre a encrenqueira. Só não fez porque a irmã gêmea a segurou.
- Sua mentirosa! Nosso pai não matou ninguém!
Ragdoll cruzou os braços, como se fosse a dona da verdade.
- Assassino sim. Matou o governador Rehwoldt. Todos sabem disso.
Era um fardo que as gêmeas carregavam e muitos dali, faziam questão de jogar na cara delas. Já estavam acostumadas, mas aquilo ainda doía demais. Kathariny levantou a cabeça.
-As pessoas falam, mas ninguém realmente sabe a verdade sobre nosso pai. Ninguém sabe o porquê ele realmente fez isso, se é que ele fez isso. O governador Rehwoldt não era flor que cheirasse... – Ela sorriu de canto. – Vai que você também seja uma assassina, Ragdoll. Qual crime que você cometeu?
Ragdoll se irritou com o comentário e quis partir para cima de Kathariny, mas uma outra mulher surgiu por suas costas e pulou nela. As duas mulheres começaram uma briga, onde todos foram separar. A outra mulher era Nikki, uma garota que o Velho adotou quando tinha sete anos, os pais adoeceram e morreram. Ela e Ragdoll nunca se deram bem, sempre em troca de farpas. Nikki ofegava, querendo bater em Ragdoll, mas as gêmeas as seguravam.
O Velho se pôs no meio das mulheres.
- Chega! Chega! Eu não aguento mais ter que ver tudo isso por uma simples idiotice. - Gritou ele, nervoso. Virou-se para Ragdoll. - Uma coisa que eu não quero é desavenças entre nosso povo. Se quiser mesmo procurar brigas, que vá procurar em outro canto garota. Não vou deixar que insulte as meninas porque elas fazem o certo. Vá junto com seu grupo e fique na sua.
Ragdoll odiava as gêmeas Martínez, mas não como odiava Nikki. E se havia algo que ela pudesse fazer para provocá-la era faria.
- Falou o senhor certinho. Você é tão hipócrita. – Disse Ragdoll, rindo e limpando a boca. O batom preto ficou borrado e ela ficou com a expressão ainda mais de revolta. – Finge proteger as pessoas, mas só se importa com essas gêmeas de sangue podre! Aposto que logo, logo elas serão como o pai foi. Um assassino!
O silêncio pairou no ar por alguns minutos. Todos olhavam de uma para a outra. As gêmeas suspiraram e abaixaram a  cabeça, sem saber o que responder mais aquelas provocações. Nikki olhou aquilo e não gostou. Olhou para Ragdoll.
- Pelo menos, elas tiveram um pai que, por mais que fosse um assassino, as amou. E você, é tão irritante que eu aposto que seus pais nem te queriam e deram graças a Deus por você ser jogada em Death Valley? – As pessoas olharam para a garota, que abriu um sorriso. – Vai lá chorar para os homens que você precisa abrir as pernas para ter proteção.
Ragdoll ficou irritada e os outros riram da última piada de Nikki. Ela foi embora, chutando tudo a sua frente. Nikki olhou para Kaleessa.
- Você viu? Você viu? Ela ficou irritadinha... Uuuuuhhhhhh.
                As pessoas riram, menos o Velho. Ao perceber que as pessoas se dispersaram, ele voltou para as três garotas que criava.
- Não gosto que fale assim  de ninguém.  Ninguém merece ser humilhado. – Ele se focou nas gêmeas. – Vocês estão bem?
Kathariny suspirou.
- Eu estou acostumada com isso já. - Falou, um tanto triste.
Kaleessa apenas deu de ombros. Nada do que Ragdoll havia dito era mentira.
Ou era.
Kaleessa nunca saberia. Seus olhos acabaram caindo sobre os três homens que haviam chego no comboio do caminhão. Na confusão, eles se distanciaram do grupo principal. Pelo visto, haviam achado algum rumo. Ou pelo menos, estavam dispostos a tentar.

Os soldados voltaram ao fechar ao portão e os caminhões foram embora. Algumas pessoas ainda dividiam os suprimentos. Death Valley era exatamente aquilo: Uma eterna confusão de pessoas perdidas, buscando sobreviver e não se afogar em um rio de desesperanças.

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