Raros
eram os dias que faziam sol. Em Death Valley, a paisagem costumava ser cinza,
com nuvens feias e pouco divertidas. Os prédios destruídos pela guerra não se
recuperaram completamente depois de 20 anos.
Talvez,
nem fossem. Viver ali não lhe dava direito de sonhar ou de desejar um futuro
melhor. Isso, era para os moradores de Mount Lee. Quem vivia em Death Valley,
condenados pelo grande muro que os separava do restante do mundo, nada
podiam fazer. Portanto, quando o sol resolvia dar o ar se sua graça, Kaleessa
gostava de aproveitar cada minuto dele. Estaria correndo por aí não fosse sua
irmã gêmea ter encasquetado, de novo, com o conserto da roda gigante.
- Kat! – Kaleessa chamou vendo a irmã
debruçada pela máquina que deveria fazer a geringonça de ferro retorcido
funcionar. – Isso não vai dar certo. Sempre tenta, tenta e acaba ficando
chateada depois.
- Desistir nunca é meu forte. – Falou
Kathariny, cada vez mais confiante que conseguiria arrumar a enorme roda
gigante. Ela sempre se perguntou o que a fez parar de funcionar. Tudo parecia
bem, o problema era algum fio solto. Sempre que podia, testava uma combinação
diferente. – Ah! Acho que agora vai.
Ela
se levantou, toda feliz. Foi até o botão e o ligou, sorridente.
Nada...
O sorriso foi se apagando. Kathariny fez bico, coçando a cabeça.
- Eu não sei qual o problema dela.
Parece que não gosta de mim. – Por dentro, estava chateada, mas fazer o que.
Olhou para a irmã. – O que está olhando? – Perguntou, curiosa.
Cruzando
os braços, Kaleessa deu uma boa olhada na roda gigante.
- Isso não tem conserto. É como nossa
cidade. Tem coisas que foram feitas para dar certo e outras que foram feitas
para serem esquecidas. – Apontando para o muro ao longe, ela suspirou. Suas
mãos estavam cobertas por luvas que deixavam os dedos de fora. Kaleessa sempre
se perguntou como as mulheres de Mount Lee se vestiam. Com certeza, seu
vestuário seria reprovado pelas gloriosas da sociedade superior. Torceu o
nariz. – Ah! Vamos esquecer essa conversa idiota e irmos embora. O Velho deve
estar precisando da gente. Está quase na hora dos caminhões de suprimentos
chegarem.
Kathariny
olhou para o grande muro e também tinha seus pensamentos sobre o lugar.
- Ele deve estar ocupado com os
amigos dele. Estava bebendo igual a um louco aquele uísque velho achado no
porão daquela casa abandonada. – Ela fez
uma careta. – Aquilo fede demais. Ecat! – Caminhando e dando risada, as duas
foram andando em direção ao muro e encontrando-se com outros moradores de Death
Valley. Eles estavam agitados, perto do grande portão. Kathariny suspirou. –
Não sei por que eles têm esperanças disso. Nunca vêm coisas boas para nós.
- Acho que você disse a palavra
chave: Esperança. – Kaleesa observou a multidão se formar. Alguns militares do
exército de Mount Lee estavam andando de uma guarita para a outra no muro. O
portão, sempre muito bem vigiado, estava com o dobro de soldados armados. –
Espero que não haja confusão como a de ontem. Não quero ver outro homem sendo
assassinado bem debaixo dos nossos narizes.
Todos
ali conviviam com as mesmas condições precárias. Pouca comida, pouco conforto e
sobrevivendo de restos enviados pelo "bom samaritano" governo que os
condenou a aquela vida. Dois caminhões pretos se aproximaram enquanto o portão
foi aberto. Homens, mulheres e crianças começaram a correr. Os soldados
tentavam a todo custo fazer com que não houvesse brigas pela disputa dos mantimentos,
roupas e móveis velhos. Qualquer quinquilharia que os moradores de Mount Lee
não quisessem eram enviadas para o Death Valley.
As
duas irmãs não tinham pressa. Elas preferiam que as crianças se fartassem com
as frutas quase que podres e com um ou dois brinquedos velhos que apareciam.
Kaleessa resolveu animar a irmã. Deu-lhe um empurrãozinho com o ombro.
- Será que veio a peça que você
precisa para consertar o chuveiro do nosso cafofo? Sabe, tomar banho quente uma
vez na vida, seria muito bom.
Kathariny
se perdia olhando a animação de toda aquela gente com pouca coisa. Muitas delas
não prestavam. Ela se sentia triste por ter que viver de restos, mas era a
única coisa que os mantinham vivos. Ela olhou a irmã e sorriu.
- Tomara que tenha vindo. Qualquer
coisinha para podermos nos se sentir bem. Aliás, acho que pode vir mais
livros. Você vai gostar. Vem.
Ela
puxou a irmã e elas foram junto de todo aquele povo. O caminhão entrou e desta
vez era enorme. Parecia que havia bastante coisa. As duas vasculharam um canto
vazio, enquanto a maioria da população via comida. Como sempre, nada muito proveitoso.
Alguns guardas tentaram arranjar briga.
- Hei! Hei! Nada disso. Eu estou
vendo que está passando a mão nela.
O
guarda pensou em retrucar, mas uma voz o impediu.
- Se afaste dela!
Todos
ficaram em silêncio e olharam na direção da voz. Um homem vestindo uma jaqueta sem
a parte dos braços, bandana no rosto e capuz foi na direção dele. Ele abaixou a
bandana e olhou para o guarda. A barba bem cheia tinha muitos fios grisalhos em
meio aos aloirados e até suas sobrancelhas padeciam da velhice recém-chegada.
Seus olhos eram marcados pelas rugas de preocupação, mas nem por isso, ele era
menos ameaçador.
Aqueles
que o seguiam também.
Um
era enorme em tamanho e barriga, loiro e com cara de viking, seu apelido era
Hook. O segundo, conhecido como Wolf, quando sorria parecia um louco.
- Com o meu povo você não vai mexer.
Pode dizer ao seu líder que as regras são minhas por aqui. – Todos riram e ele
olhou para todo o lixo que deixaram. – Temos alguma coisa boa? Hein? Se já
deixaram todo seu resto, vão embora e nos deixem em paz.
Kaleessa
sorriu ao ver o Velho ditar as regras. Todos os chamavam assim: Velho. Ninguém
sabia seu nome de verdade. Também, nem fazia diferença.
Para
as gêmeas, o Velho era bem mais que um líder amado e respeitado, era o pai que
as criara, mesmo sem ter o mesmo sangue. Eram duas bebêzinhas quando ele as
encontrou em meio à guerra e tiveram sorte dele as pegar para si e ter todo o
cuidado de confortá-las em sua desgraçada de ter os pais mortos.
Não
era segredo que Kaleessa e Kathariny eram as filhas gêmeas do antigo líder dos
rebeldes, John Martínez. Um homem traído por seu braço direito, mas jamais
esquecido da lembrança daqueles que ainda acreditavam em liberdade, justiça e
igualdade.
- Soltem tudo aí. – Gritou o guarda
para o motorista do caminhão.
Na
verdade, acabou-se transformando em uma afronta. O motorista apertou alguns
botões e ergueu a caçamba, jogando toda a comida no chão. Mais empurra,
empurra. Mais pessoas disputando um pedaço de pão duro e leite azedo. O Velho
ficou muito irritado, mas Kaleessa segurou em seu braço.
- Deixe para lá. Eles só querem
debochar de nós. Não vale a pena. – Ela fitou a irmã que estava com o olhar
fixo no segundo caminhão de menor porte. Não era mais comida, muito menos
objetos. Eram pessoas que eram empurradas pelos guardas. – Que droga! Mais
exilados. Mais gente que o governo quer se livrar. – Resmungou Kaleessa.
Todos olharam para o pequeno caminhão e só
esperaram. A porta traseira foi aberta e alguns homens foram empurrados de lá.
O Velho se colocou a frente, para olhar melhor todos eles. Estavam sujos e
todos machucados. Mas, daqueles novatos três chamaram a atenção do Velho que
sinalizou para Hook e Wolf. Aqueles três usavam calças rasgadas, regatas e
botas. Um deles, o loiro, usava luvas como a de Kaleessa. Não demorou muito para
Hook e Wolf cercarem os novatos.
- Quem são eles? - Perguntou o Velho,
mostrando autoridade.
Dos
três homens, o mais alto, que usava regata preta e tinha um cabelo tão grande e
entrançado quanto o de Kathariny, foi quem deu um passo a frente. Seus olhos
esverdeados, ora pareciam azuis, demonstravam o quanto era perigoso. O modo
como ele olhou para o soldado que o empurrava foi estranho. Kaleessa prestou
bem atenção e se arrepiou com o momento. O soldado não se fez de rogado.
- Esses são vagabundos,
transgressores das regras de Mount Lee e, por isso, vieram morar no chiqueiro. –
Ele gargalhou e olhou para o Velho. – São todos seus.
O
Velho era muito observador e desconfiado. Não era qualquer um que ele aceitava
vindo de Mount Lee. Kaleessa engoliu seco. Todos ao redor estavam esperando
pela aceitação ou não do Velho. Mas, alguns gritos interromperam seus
pensamentos.
- Por favor! É para a minha filhinha!
Ela está com muita fome.
Era
uma mulher de joelhos, perto da pilha de comida, puxando um pacote de biscoitos
da mão de outra mulher. Esta era magra, com o cabelo raspado na lateral e uma
franja pontiaguda que cobria parte do lado esquerdo do rosto. Seu braço
esquerdo era todo coberto por tatuagens, bem como sua perna direita.
Todos a conheciam como Ragdoll, a encrenqueira.
- Eu também estou com fome, sua
idiota. A lei aqui é simples, pegou, levou. – Se já não bastasse à arrogância e
a falta de compaixão pela mulher que, aparentemente, estava doente, Ragdoll a chutou
e tirou o pacote de biscoitos de sua mão.
- O que está fazendo? – Perguntou
Kathariny, irritada ao ver o que Ragdoll fez. Ela se aproximou e tomou o pacote
de biscoitos da mão da mulher. A senhora ainda chorava e olhava para as duas. –
Como sempre, querendo bancário a rebeldezinha, não é Ragdoll? Enquanto
estivermos aqui, sua "lei" não vai funcionar. – Kathariny se virou e
ajudou a outra mulher a se levantar. – Leve para Izzy, Senhora Blaze. Eu sei
que ela vai gostar.
A
mulher, agradecida, olhou uma última vez para Ragdoll e foi embora,
feliz. O Velho se aproximou junto de Kaleessa. Ele balançou a cabeça.
- Qual é o seu problema garota? –
Perguntou ele. – Você nunca entende não é? Seu ego é muito grande para que
possa entender como se vive aqui? – Ele olhou por toda a volta. – Não é a toa
que estamos nesse lixo de mundo, vivendo de restos... Não era para ser assim. –
Diz ele, um tanto receoso.
- Claro que não era para ser assim,
seu velho babaca. - Ragdoll gritou a plenos pulmões. Cuspia as palavras,
atraindo a atenção de todos. Os soldados se divertiam com o embate. – A culpa
disso é do sangue ruim que elas aí... – Ela apontou para Kathariny e Kaleessa. –
Tem correndo nas veias. Todo mundo aqui sabe que só somos exilados graças ao
papaizinho assassino!
Kaleessa
quis avançar sobre a encrenqueira. Só não fez porque a irmã gêmea a segurou.
- Sua mentirosa! Nosso pai não matou
ninguém!
Ragdoll
cruzou os braços, como se fosse a dona da verdade.
- Assassino sim. Matou o governador Rehwoldt.
Todos sabem disso.
Era
um fardo que as gêmeas carregavam e muitos dali, faziam questão de jogar na cara
delas. Já estavam acostumadas, mas aquilo ainda doía demais. Kathariny levantou
a cabeça.
-As pessoas falam, mas ninguém
realmente sabe a verdade sobre nosso pai. Ninguém sabe o porquê ele realmente
fez isso, se é que ele fez isso. O governador Rehwoldt não era flor que
cheirasse... – Ela sorriu de canto. – Vai que você também seja uma assassina, Ragdoll.
Qual crime que você cometeu?
Ragdoll
se irritou com o comentário e quis partir para cima de Kathariny, mas uma outra
mulher surgiu por suas costas e pulou nela. As duas mulheres começaram uma
briga, onde todos foram separar. A outra mulher era Nikki, uma garota que o
Velho adotou quando tinha sete anos, os pais adoeceram e morreram. Ela e Ragdoll
nunca se deram bem, sempre em troca de farpas. Nikki ofegava, querendo bater em
Ragdoll, mas as gêmeas as seguravam.
O
Velho se pôs no meio das mulheres.
- Chega! Chega! Eu não aguento mais
ter que ver tudo isso por uma simples idiotice. - Gritou ele, nervoso. Virou-se
para Ragdoll. - Uma coisa que eu não quero é desavenças entre nosso povo. Se
quiser mesmo procurar brigas, que vá procurar em outro canto garota. Não vou
deixar que insulte as meninas porque elas fazem o certo. Vá junto com seu grupo
e fique na sua.
Ragdoll
odiava as gêmeas Martínez, mas não como odiava Nikki. E se havia algo que ela
pudesse fazer para provocá-la era faria.
- Falou o senhor certinho. Você é tão
hipócrita. – Disse Ragdoll, rindo e limpando a boca. O batom preto ficou
borrado e ela ficou com a expressão ainda mais de revolta. – Finge proteger as
pessoas, mas só se importa com essas gêmeas de sangue podre! Aposto que logo,
logo elas serão como o pai foi. Um assassino!
O
silêncio pairou no ar por alguns minutos. Todos olhavam de uma para a outra. As
gêmeas suspiraram e abaixaram a cabeça, sem saber o que responder mais
aquelas provocações. Nikki olhou aquilo e não gostou. Olhou para Ragdoll.
- Pelo menos, elas tiveram um pai
que, por mais que fosse um assassino, as amou. E você, é tão irritante que eu
aposto que seus pais nem te queriam e deram graças a Deus por você ser jogada
em Death Valley? – As pessoas olharam para a garota, que abriu um sorriso. –
Vai lá chorar para os homens que você precisa abrir as pernas para ter proteção.
Ragdoll
ficou irritada e os outros riram da última piada de Nikki. Ela foi embora,
chutando tudo a sua frente. Nikki olhou para Kaleessa.
- Você viu? Você viu? Ela ficou
irritadinha... Uuuuuhhhhhh.
As
pessoas riram, menos o Velho. Ao perceber que as pessoas se dispersaram, ele
voltou para as três garotas que criava.
- Não gosto que fale assim de
ninguém. Ninguém merece ser humilhado. – Ele se
focou nas gêmeas. – Vocês estão bem?
Kathariny
suspirou.
- Eu estou acostumada com isso já. -
Falou, um tanto triste.
Kaleessa
apenas deu de ombros. Nada do que Ragdoll havia dito era mentira.
Ou
era.
Kaleessa
nunca saberia. Seus olhos acabaram caindo sobre os três homens que haviam chego
no comboio do caminhão. Na confusão, eles se distanciaram do grupo principal.
Pelo visto, haviam achado algum rumo. Ou pelo menos, estavam dispostos a
tentar.
Os
soldados voltaram ao fechar ao portão e os caminhões foram embora. Algumas
pessoas ainda dividiam os suprimentos. Death Valley era exatamente aquilo: Uma
eterna confusão de pessoas perdidas, buscando sobreviver e não se afogar em um
rio de desesperanças.

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