Os
prédios em Death Valley não eram muito diferentes uns dos outros. Aqueles que
não haviam sido destruídos com a guerra foram aproveitados pelas pessoas que lá
viviam.
Melhorias?
Isso não dava para dizer ao certo. Os exilados viravam-se como podiam. Com os
restos e "doações" vindos de Mount Lee, aqueles que conseguiam boas
coisas, viviam tentando conforto para suas habitações.
Na
rua do grande carrossel, um trio de homens andava preocupados se haviam sidos
seguidos. Não queriam chamar atenção. Deveriam se misturar com os outros
exilados. Até porque, era isso o que os três eram: exilados. O mais alto e
cabeludo, se chamava Joshua. Foi ele quem apontou o prédio de pintura rosa
descascado.
Vinte
anos antes e ele serviu de prefeitura. A guerra quase o destruiu. O que havia
ficado de pé, parecia... Acolhedor. Isso, se pelos corredores o cheiro de urina
e fezes não fosse sentido. O esgoto estava danificado, isso era óbvio.
No
quarto andar, uma porta em especial. A caveira de um leão desenhada nela era a
indicação que Joshua procurava. Ele bateu na porta e um homem com barba rala,
óculos de armação fina e cara de quem não devia ser um exilado os atendeu,
assustado.
- Entrem, entrem. – O apartamento
pequeno era um caos. Muitos móveis e pouco espaço. – Er... Tem uma cadeira ali.
Outra ali. E acho que tem uma... – Ele falava agitado, mexendo os braços. – Ai,
droga. Eu devia ter arrumado isso.
Joshua
olhou de um lado para o outro. Pode ver um serrote e uma lixa de madeira.
- Hei, Marek. – Joshua chamou a
atenção do homem atolado. – Está tudo bem, cara. Não precisamos de cadeiras.
Precisamos de um lugar para ficar.
- Lugar para ficar? – Marek repetiu,
confuso. – Claro! Vocês podem ficar aqui. – Ele estendeu os braços, mostrando
seu bagunçado espaço.
Aquilo
era estranho para os três. Eles olhavam de um lado para o outro e não sabiam
aonde se enfiar. O moreno e de cabelo até os ombros se chamava Sebástian, o
loiro de olhos azuis bem claros era Derek. Ele quem torceu o nariz ao
olhar o lugar e se sentou em uma cadeira que Marek apontou.
- Ahn... Cara, já pensou em arrumar
tudo isso aqui? – Ele pegou uma meia, que fedia e jogou para o lado.
Sebástian
balançou a cabeça.
- Marek, nos coloque a par de tudo,
por favor. – Disse, mais sério.
- Arrumar isso. – Marek catou a meia
e tentou escondê-la, repetindo o que os outros homens falavam. – Contar
tudo.... Ah não, não! Eu não sei onde guardei minhas instruções.
Joshua
viu sua paciência acabar. Ele não queria ser severo com Marek, mas não dava
para ser o bonzinho do lugar. Ele colocou as mãos sobre os ombros do anfitrião
e o jogou contra a parede. Tentou sorrir, apesar da agressão.
- Quer voltar a Mount Lee, não quer?
Dar orgulho ao seu tio. Foi ele quem nos mandou aqui.
Marek
assentiu com a cabeça.
- Titio... Meu tio... – O homem bateu
na própria cabeça. – Tem o Velho que todo mundo acha que é o líder, mas ele não
é. Ou é. É sim. Eu gosto dele. – Ele falava um pouco confuso. – Tem a D.D que é
uma velhota que me dá medo. A Ragdoll e todo mundo que anda com ela. Não gostam
do Velho. As luzes são apagadas às dez da noite e tem água encanada, mas não
podem gastar muito. O Velho fecha a válvula principal quando não chove e, por
isso temos que poupar a água e...
- Não queremos saber o que temos de
poupar ou não, para nós não vai ser problema algum. – Falou Sebástian, um tanto
bravo. Ele respirou fundo e voltou a falar mais baixo. – Queremos saber do Velho
e das pessoas desse lugar. Aquelas envolvidas na confusão mais cedo. Vimos você
lá. Precisamos saber de coisas mais importantes.
Marek
não respondeu e Joshua bufou.
Pelo
visto, nada seria fácil naquela droga de lugar.
- Quanto mais coisas nos contar, mais
rápido vamos descobrir o que precisamos e mais rápido vamos embora daqui. – Joshua
ajeitou a camisa de Marek e falou baixo. – Você vai junto, esse é o trato,
lembra? Mount Lee e seu tio te esperam. Ele vai colocar você do lado dele no
governo de novo.
Mount
Lee... O desejo de qualquer um exilado. Um sonho inatingível que Marek tinha
tudo para conseguir. Ele ajeitou os óculos.
- O Velho é o líder. – Repetiu Marek,
mais concentrado agora. – O cara de barba grisalha cercado pelos dois grandões
e as garotas. Ele é o manda-chuvas por aqui. Todo mundo escuta ele.
- E as garotas? – Perguntou Joshua,
interessado. - São mesmo as filhas de Martínez?
- Sim, sim! – Marek confirmou,
sacudindo a cabeça algumas vezes de modo afirmativo. – As gêmeas Kaleessa e
Kathariny. As crianças adoram elas, por causa dos livros e dos brinquedos que
elas inventam ou consertam. Eu também conserto coisas, mas não sou tão bom
quanto a Kathariny. Ela é melhor com as máquinas, entende como elas funcionam.
Surgiu
o interesse por parte deles sobre as gêmeas. Eles ouviram falar muito de sua
criação e de sua inteligência e era por aquilo mesmo que estavam lá. O
interesse do governo de Mount Lee nas duas meninas era grande e eles começavam
a entender o por que.
- E a outra menina? Ahn..
Kaloo, Kal....
- Kaleessa. – Marek completou o nome
da gêmea. – Ela acha que pode educar as crianças. Ensina elas a ler e
escrever.
Derek
achou aquilo ridículo.
- Para que?! Eles precisam de comida,
não de literatura.
Marek
concordou, cruzando os braços e os óculos balançando sobre o nariz.
- Mas, as Martínezs são assim. Como o
pai era. Querem a salvação.
Joshua
trocou olhares com Sebástian e Derek. Aquilo explicava um pouco da missão deles,
mas não tudo. Eles não estavam ali para conter uma mínima ameaça ao governo de
excelência do governador Rude. Não tinham sido jogados na merda por tão pouco.
Ou tinham? Será que as gêmeas eram de alguma valia?
- Tem alguma coisa para comer aí? -
Ele perguntou querendo se livrar de Marek. O anfitrião se embolou com as
palavras e sumiu por uma porta. Isso deu tempo a Joshua. - Derek, Sebástian...
Isso não faz o menor sentido. O governador Rude disse que essas garotas estavam
armando uma nova revolta.
Sebástian
passou a mão na nuca e respirou fundo.
- Achei que iam atacar os soldados,
fazer algum alvoroço e a única coisa que vi foi aquela cheia de tatuagens bater
em uma senhora e tentar roubar comida dela. Fora que parecem jovens demais para
organizarem uma revolta.
Derek
sorriu.
- Bem, o nome Martínez não é algo que
cheire bem. Lembrem-se da história do pai delas. Confiaram tanto nele que
quando teve a oportunidade, matou o antigo governador e todo esse caos começou.
Então amigos, não se enganem com duas carinhas bonitas. – Concluiu ele.
Um
pouco contra a vontade, Joshua concordou. A história dele, de Derek e Sebástian
se assimilaram naquela missão. Amigos nos anos que serviram ao exército de
Mount Lee, agora era os escolhidos para acabar com a tal revolta que estava
sendo articulada por baixos dos panos. Era isso, ou então, viver em Death
Valley não seria só uma missão. Seria para sempre. Joshua ouviu alguns barulhos
e deduziu que Marek estava enrolado com as panelas.
- Vamos comer alguma coisa e dar uma
volta por aí. – Decretou.
Se as
filhas de Martínez eram seu objetivo, nada o podia parar.

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